Andar nos lugares tantas vezes já andados, mas que, por certos períodos, pareceram inexistentes. Enfurnados no porão do museu, há tempos longe de catálogo, sob panos mofados, ainda estão lá. Mesmo que não vistos, permanecem: ocupam espaços invisíveis e impalpáveis, conquanto pesados. E a volta daquele medo infantil que vinha com a sensação de estar muito longe de casa. Sim, aquele temor absurdo que brotava quando, depois de tanto tempo tão longe, duvidava se minha casa ainda estava lá. Ela ainda existiria, com sua alma repleta de aconchego? Alguém mexera no meu brinquedo preferido?
Essa era a parte que mais doía. As coisas e pessoas que nos definem ou nos definiram continuaram vivendo na nossa ausência. E é a distancia que se abre entre o interno e o externo, o alheio que vive em nós e sem nós, que macula toda a chance de imutabilidade das lembranças. É, até as lembranças mudam. Quem dera se fossem sempre conforto e aconchego como a casa distante que, mesmo depois de tanto tempo, continua igual.
Mas nunca são as mesmas. A sina das memórias é mudar e pedir que nos redefinamos para caber na nova cama, diferente daquela que deixamos antes da viagem. Encolher ou aumentar e resignar-se, por ver o melhor brinquedo quebrado. O melhor. No fundo, somos também os mesmos medos de criança. Somos tanto e tão intensamente o passado que falamos demais do futuro, cantamos em datas comemorativas e dizemos da memória como dádiva. Sempre presos no museu, vemos muitas vidas nas janelas, muitas histórias nas molduras e secamos em pó e traças, sem entender que o que será é tão somente o que já passou.
Alguma utilidade?
Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Nascido em 1991
Nascido em 1991, cheirava tédio da cabeça aos pés. Era aquele cheiro ocre das coisas que vão e vêm pré-determinadas, já ditas, mas capazes de se esconder entre cochichos, bocas de lado e sinais sutis em festas de natal, almoços familiares e na praça em que sempre se bebe com os amigos. Vidas que se chocam e se abastecem, mas não! Não para os nascidos em 1991, que só conhecem o medo da confiança coletiva. O medo e o cinismo. O cinismo que não põe a mesa nos almoços familiares e nas festas de natal, nem enche os copos nas bebedeiras de praça.
Nascido em 1991, adorava dias nublados e músicas que só são ouvidas, cantadas e até mesmo compostas em dias nublados. Porque dias nublados anunciam sempre a grande tempestade que aqui, abaixo dos trópicos, geralmente nunca vem. Na verdade, nascido em 1991, sabia sempre de como a vida é vazia quando se está falando sobre o tempo.
Mas a propósito disso, nas raras vezes em que a chuva vinha, tinha, assim como todo nascido em 1991, medo dela e dos ruídos que ela produzia na TV. Lembravam a ele sempre das antenas no espaço profundo retransmitindo sinais num universo de vácuo e imensidão. Era da solidão das gentes que esses ruídos falavam. Sobretudo nascido em 1991, não queria crescer num mundo sem grandes ideais para ocupar a mente nos domingos ao fim da tarde, quando o sol se põe e existe uma dor tão pungente dentro da gente que a gente se entope com ”talk shows” cheios de ruídos do espaço profundo e, sem muros para nos conter, só queremos muito é morrer.
Nascido em 1991, adorava dias nublados e músicas que só são ouvidas, cantadas e até mesmo compostas em dias nublados. Porque dias nublados anunciam sempre a grande tempestade que aqui, abaixo dos trópicos, geralmente nunca vem. Na verdade, nascido em 1991, sabia sempre de como a vida é vazia quando se está falando sobre o tempo.
Mas a propósito disso, nas raras vezes em que a chuva vinha, tinha, assim como todo nascido em 1991, medo dela e dos ruídos que ela produzia na TV. Lembravam a ele sempre das antenas no espaço profundo retransmitindo sinais num universo de vácuo e imensidão. Era da solidão das gentes que esses ruídos falavam. Sobretudo nascido em 1991, não queria crescer num mundo sem grandes ideais para ocupar a mente nos domingos ao fim da tarde, quando o sol se põe e existe uma dor tão pungente dentro da gente que a gente se entope com ”talk shows” cheios de ruídos do espaço profundo e, sem muros para nos conter, só queremos muito é morrer.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
"Se lembra do futuro que a gente combinou?"
Abriu com calma o envelope. Dentro, apenas um CD. Ficou algumas horas sentado tentando entender a razão daquilo. Depois de tantos anos, sempre nesse precipitar-se vertiginoso, nesse espaço de idas e vindas que só anunciam e não concretizam, de repente, ali estava uma prova material de que ela ainda se lembrava. Antes de ouvir, entregou-se à memória.
Algumas coisas só se entendem do começo ao fim. Outras, destacando-se do todo. Às vezes, um misto dos dois. Veio da adolescência. Talvez seja um bom ponto de partida. Só se lembrava de ter notado que ela era linda. E também que usava uma camiseta dos "Beatles". E por ser a garota linda que tinha uma esquisitice em comum com ele, achou por bem falar “oi”. Já sabia, até antes disso, que ia se apaixonar.
Os primeiros meses foram para planejar a vida. Não que o presente não fosse bom, mas urgia combinar o futuro. Não podiam crescer naquele lugar onde o excesso de decoro nauseava e o maior defeito das pessoas era o perfeccionismo. Ele até entendia porque odiava as boas aparências e os indivíduos adequados, ele mesmo a expressão da inadequação e da insegurança. O que tanto fascinava-o era que ela também odiasse: ela, tão obscenamente bela e bem-aceita.
Planejar também embriaga, mas era assim: a vida correria para as metrpópoles, ambos teriam uma profissão de importante função social e fariam algo pelo mundo. Nossa, como ririam da exitência medíocre das pessoas que discutem no almoço de domingo qual é o melhor frango assado da cidade.
Claro que deu tudo errado. Aliás, até hoje ele não suporta ouvir “Como Nossos Pais”. Fizera uma volta tão grande para fugir do futuro determinado, justo para voltar ali. Ela odiou a rotina das metrópoles e começou a dizer que o amor deles só servia para períodos de planejamento. Era impossível viver com alguém tão pouco prático.Retornou à cidade-natal e se casou com seu vizinho de infância, engenheiro, estável, encarnação das coisas que estão em seu devido lugar.
Quanto a ele, o amante abandonado, acabou desempregado aos vinte cinco. Teve de aceitar um bico na empresa do pai. Casou-se com uma moça dócil, ela mesma a encarnação da invisibilidade. Se era para não viver o que sonhara, pelo menos viveria sem ser visto e sem se ver.
Liberto das divagações, podia escutar as próprias batidas quando saíram os primeiros acordes do rádio. Não conteve o choro: até enxergava a nostalgia emitida pelos primeiros versos de “Maninha”, de Chico Buarque. De repente, ele estava ouvindo sua amada lhe perguntar assustada na boca da noite: “Se lembra do futuro que a gente combinou?” Mas eles não eram nem se sentiam mais crianças.
Algumas coisas só se entendem do começo ao fim. Outras, destacando-se do todo. Às vezes, um misto dos dois. Veio da adolescência. Talvez seja um bom ponto de partida. Só se lembrava de ter notado que ela era linda. E também que usava uma camiseta dos "Beatles". E por ser a garota linda que tinha uma esquisitice em comum com ele, achou por bem falar “oi”. Já sabia, até antes disso, que ia se apaixonar.
Os primeiros meses foram para planejar a vida. Não que o presente não fosse bom, mas urgia combinar o futuro. Não podiam crescer naquele lugar onde o excesso de decoro nauseava e o maior defeito das pessoas era o perfeccionismo. Ele até entendia porque odiava as boas aparências e os indivíduos adequados, ele mesmo a expressão da inadequação e da insegurança. O que tanto fascinava-o era que ela também odiasse: ela, tão obscenamente bela e bem-aceita.
Planejar também embriaga, mas era assim: a vida correria para as metrpópoles, ambos teriam uma profissão de importante função social e fariam algo pelo mundo. Nossa, como ririam da exitência medíocre das pessoas que discutem no almoço de domingo qual é o melhor frango assado da cidade.
Claro que deu tudo errado. Aliás, até hoje ele não suporta ouvir “Como Nossos Pais”. Fizera uma volta tão grande para fugir do futuro determinado, justo para voltar ali. Ela odiou a rotina das metrópoles e começou a dizer que o amor deles só servia para períodos de planejamento. Era impossível viver com alguém tão pouco prático.Retornou à cidade-natal e se casou com seu vizinho de infância, engenheiro, estável, encarnação das coisas que estão em seu devido lugar.
Quanto a ele, o amante abandonado, acabou desempregado aos vinte cinco. Teve de aceitar um bico na empresa do pai. Casou-se com uma moça dócil, ela mesma a encarnação da invisibilidade. Se era para não viver o que sonhara, pelo menos viveria sem ser visto e sem se ver.
Liberto das divagações, podia escutar as próprias batidas quando saíram os primeiros acordes do rádio. Não conteve o choro: até enxergava a nostalgia emitida pelos primeiros versos de “Maninha”, de Chico Buarque. De repente, ele estava ouvindo sua amada lhe perguntar assustada na boca da noite: “Se lembra do futuro que a gente combinou?” Mas eles não eram nem se sentiam mais crianças.
domingo, 4 de setembro de 2011
A Questão insolúvel
Por errar caminhos, perdi-me de mim. E enquanto observo a realidade congelada dos dias que se arrastam apenas com aridez e tédio empoeirado, penso de novo em tudo que não foi. A vida que não foi é tão sublime e bela, que sempre decido vivê-la. Por vivê-la demais, cheguei aqui. Nunca estive tão longe dela. Nem de mim.
Meus tempos de “novo tempo”, de crer que o presente é apenas o ensaio para o grandiloqüente espetáculo que ainda virá, estão se esgotando. E aí crescer não é expectativa, mas enfado doloroso.
Com a vista turva, caminho solene e trôpego por entre gentes e lugares com os quais não irmano. Há rostos distorcidos, mão avulsas gesticulando, espaços de inocência que se volatilizam e nuvens pesadas de dor. Soberana, a dor impera. E dissolve: eu e a vida que tenho. Pobre de mim, ainda resta a vida que nunca terei, intacta e fulgurante, a zombar do homem que não soube e nunca saberá construí-la.
Vou alugá-la por um tempo, alugar o eu mesmo que perdi. Quem sabe assim, minha cota mensal de redenção compre provisoriamente um pouco dos planos que fiz, refiz e sonhei para mim. Mas bem, talvez “comprar” não seja um bom verbo. Alugar não é comprar e locatário é proprietário incompleto. Assim, sigo com a vida alugada condenada à incompletude perpétua? Ou escolho o não? Não apostar no planejado, aceitar o “tudo fora de lugar” e arrastar os anos vindouros numa vida clandestina, tão alienada de mim mesmo? Eis a questão insolúvel.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Sobre aquele espaço de limbo
Parafraseando Zeca Baleiro, estava achando a vida tão chata. E só. Mais solitário que um elevador, agora, ao menos, posso torcer para enguiçar no mesmo andar que você. Não, você não entende. Eu não entendo. A minha vida no meio. E um enorme medo de que o futuro escorra pelos cantos sinuosos de um presente abarrotado de tudo que não foi.
E nesse espaço de limbo, sobra tédio. No café da manhã, no almoço. E um pouco de você. Para curar o tédio, para tirá-lo da mesa e trocá-lo pela sobremesa. Sim, passar direto à sobremesa e fugir da rotina.
Assim, mudo a “playlist”, abandono Zeca Baleiro e coloco Titãs. E, enquanto não sei para onde vou e aonde tudo isso vai dar, pelo menos posso cantar os primeiros versos de “Pra dizer adeus”. Sim, “você apareceu do nada” e, sim, “você mexeu demais comigo.” Em tempos de muitos registros e escassez de memórias, é das poucas verdades que sei.
E nesse espaço de limbo, sobra tédio. No café da manhã, no almoço. E um pouco de você. Para curar o tédio, para tirá-lo da mesa e trocá-lo pela sobremesa. Sim, passar direto à sobremesa e fugir da rotina.
Assim, mudo a “playlist”, abandono Zeca Baleiro e coloco Titãs. E, enquanto não sei para onde vou e aonde tudo isso vai dar, pelo menos posso cantar os primeiros versos de “Pra dizer adeus”. Sim, “você apareceu do nada” e, sim, “você mexeu demais comigo.” Em tempos de muitos registros e escassez de memórias, é das poucas verdades que sei.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Sobre humanidade e barreiras
Ninguém mais se lembrava como foram erguidos. Alguns diziam que sempre existiram e a sina do ser humano era conformar-se com a sua presença. E faziam imensa propaganda dessa bandeira a quatro cantos. Outros queriam derrubá-los a qualquer custo, convictos de que não era lógico que vivessem entre barreiras. Por fim, a imensa maioria ignorava a presença deles, conquanto suas sombras colossais ofuscassem os sujeitos e turvassem os caminhos.
Tudo começou com o grande medo. Em cada cidade, vila, aldeia, casa...em cada ser, surgiu a suspeita. Não poderia estar tudo bem. Em algum lugar dentro de si, todos estavam convictos de que a felicidade era tão precária e efêmera quanto insignificante para outrem e, portanto, se havia um estado de calma, ele logo deveria acabar. A partir daí cresceram os boatos sobre a tenebrosa ameaça externa. Era inominável, inclassificável e incompreensível, contudo viria de muito longe engolfar para sempre toda a alegria entre os humanos.
Então iniciaram-se os conflituosos debates. Cada qual paralisado pelo medo, deixava guiar-se pelo instinto de sobrevivência na busca de uma solução. E as reuniões entre os grandes líderes resultaram numa conclusão tão onerosa quanto ridícula frente a um problema desconhecido: o melhor era erguer muros, enormes e rijos. Se era uma ameaça externa, não perpetuar-se-ia entre eles.
E assim, em meio ao medo, nuvens de concreto, o peso das vigas de aço e a náusea provocada pelo desconhecido, levantaram-se os alicerces dos primeiros muros. No início, todos deliraram de alívio, pois parecia a solução correta para o grande medo. Contudo, com o tempo percebeu-se que ele ainda estava ali, e nem a imagem dos muros, tornando-se cada vez mais imponentes e assustadores, era capaz de expulsá-lo.
Realizaram-se novas convenções e não adotou-se uma mudança de postura. Assim, geração seguida de geração empenhava-se na construção de novas muralhas e na elevação das antigas. A prática foi tornando-se milenar e tradicional, de forma que ninguém mais sabia que surgira para combater o grande medo, já plenamente assentado e onipresente em cada canto do planeta. Logo, tal prática já não era mais condicionada pela razão e acomodou-se no inconsciente coletivo da humanidade, tornando-se contínua e imperceptível. Muros e barreiras surgiam em cada ação, mas a maioria das pessoas ia perdendo a capacidade de perceber tal fato.
Alguns sábios, nos vãos perdidos entre os volumes da história, tentaram formular outra hipótese: o grande medo não vinha de fora, e sim de dentro do ser humano, o que confirmaria a inutilidade dos muros. Gritavam desesperadamente para abrirem os olhos, pois um dia aquela fortaleza de concreto e vigas de aço, erguida sob os signos do tédio, da náusea e do medo, desabaria sobre todos, sepultando um mesquinho sonho de grandeza. Contudo, todos esses sábios, sem exceção, foram perseguidos e calados. A grande maioria restante dos humanos não queria aceitar que sua única habilidade nata, a de criar divisões, surgiu de uma conclusão errada e perpetuou-se por milênios sem nenhuma utilidade prática.
No fim dos tempos, não sobrará ninguém para atestar a lucidez dos sábios. Mas sim, a fortaleza irá desabar. E aqueles que a defendem ou ignoram, arruinar-se-ão entre suas ruínas. E a nuvem de concreto e o barulho das vigas de aço caindo levarão a parcela restante a um último instante de caos silencioso ante o deslumbramento que precede o fim. E sob as os restos de todos os grandes muros, estará enterrado para sempre o último resquício de humanidade, finalmente livre do grande fardo e do grande medo.
Tudo começou com o grande medo. Em cada cidade, vila, aldeia, casa...em cada ser, surgiu a suspeita. Não poderia estar tudo bem. Em algum lugar dentro de si, todos estavam convictos de que a felicidade era tão precária e efêmera quanto insignificante para outrem e, portanto, se havia um estado de calma, ele logo deveria acabar. A partir daí cresceram os boatos sobre a tenebrosa ameaça externa. Era inominável, inclassificável e incompreensível, contudo viria de muito longe engolfar para sempre toda a alegria entre os humanos.
Então iniciaram-se os conflituosos debates. Cada qual paralisado pelo medo, deixava guiar-se pelo instinto de sobrevivência na busca de uma solução. E as reuniões entre os grandes líderes resultaram numa conclusão tão onerosa quanto ridícula frente a um problema desconhecido: o melhor era erguer muros, enormes e rijos. Se era uma ameaça externa, não perpetuar-se-ia entre eles.
E assim, em meio ao medo, nuvens de concreto, o peso das vigas de aço e a náusea provocada pelo desconhecido, levantaram-se os alicerces dos primeiros muros. No início, todos deliraram de alívio, pois parecia a solução correta para o grande medo. Contudo, com o tempo percebeu-se que ele ainda estava ali, e nem a imagem dos muros, tornando-se cada vez mais imponentes e assustadores, era capaz de expulsá-lo.
Realizaram-se novas convenções e não adotou-se uma mudança de postura. Assim, geração seguida de geração empenhava-se na construção de novas muralhas e na elevação das antigas. A prática foi tornando-se milenar e tradicional, de forma que ninguém mais sabia que surgira para combater o grande medo, já plenamente assentado e onipresente em cada canto do planeta. Logo, tal prática já não era mais condicionada pela razão e acomodou-se no inconsciente coletivo da humanidade, tornando-se contínua e imperceptível. Muros e barreiras surgiam em cada ação, mas a maioria das pessoas ia perdendo a capacidade de perceber tal fato.
Alguns sábios, nos vãos perdidos entre os volumes da história, tentaram formular outra hipótese: o grande medo não vinha de fora, e sim de dentro do ser humano, o que confirmaria a inutilidade dos muros. Gritavam desesperadamente para abrirem os olhos, pois um dia aquela fortaleza de concreto e vigas de aço, erguida sob os signos do tédio, da náusea e do medo, desabaria sobre todos, sepultando um mesquinho sonho de grandeza. Contudo, todos esses sábios, sem exceção, foram perseguidos e calados. A grande maioria restante dos humanos não queria aceitar que sua única habilidade nata, a de criar divisões, surgiu de uma conclusão errada e perpetuou-se por milênios sem nenhuma utilidade prática.
No fim dos tempos, não sobrará ninguém para atestar a lucidez dos sábios. Mas sim, a fortaleza irá desabar. E aqueles que a defendem ou ignoram, arruinar-se-ão entre suas ruínas. E a nuvem de concreto e o barulho das vigas de aço caindo levarão a parcela restante a um último instante de caos silencioso ante o deslumbramento que precede o fim. E sob as os restos de todos os grandes muros, estará enterrado para sempre o último resquício de humanidade, finalmente livre do grande fardo e do grande medo.
Sobre a Cidade Maravilhosa
E no mar estava escrita uma cidade.” Depois Drummond, nada mais deveria ser dito. Mas a gente tem mania de dizer o que não deve, então completo: e depois do Rio, nenhuma outra foi escrita. Não havia traçados melhores. E o mar se impôs, irresoluto em sua completude. Dele é a matéria de que é feita toda a Cidade Maravilhosa.
De mar é o burburinho que se eleva das ruas, a conversa quente e abafada no centro pulsante. Tem cheiro de mar a história marcada em cada um dos monumentos históricos.
De mar é a favela que se acende à noite, irregular como o formato das ondas: sempre indiferentes e magnetizadas pela praia. De mar é o jeitinho carioca, embrião do brasileiro, vago, manhoso e meio traiçoeiro, como o movimento das marés.
De mar é o calçadão de Copacabana, mar que invade o concreto, está nas havaianas e bermudas. Ipanema, suas muitas garotas, seus hotéis também: inacessíveis e desejados como o mar. De mar é o céu alaranjado avistado no mirante do Leblon, o Pão de Açúcar sendo engolfado pela escuridão da noite. E o Corcovado, solitário. Como o mar.
A Barra, sua classe média meio insegura: tem o mar na barriga. Tem mar nessa multidão de múltiplas origens, furiosa e arrebatadora.
De mar é o Cristo, braços abertos, decidido a abraçar o próprio mar, certo da sua impotência ante a hercúlea tarefa. E se cala. Cristo e o mar. Também não acreditam na beleza do que fizeram. Preferem não falar. E a serenidade de seu silêncio é a mais expressiva descrição da Cidade Maravilhosa.
De mar é o burburinho que se eleva das ruas, a conversa quente e abafada no centro pulsante. Tem cheiro de mar a história marcada em cada um dos monumentos históricos.
De mar é a favela que se acende à noite, irregular como o formato das ondas: sempre indiferentes e magnetizadas pela praia. De mar é o jeitinho carioca, embrião do brasileiro, vago, manhoso e meio traiçoeiro, como o movimento das marés.
De mar é o calçadão de Copacabana, mar que invade o concreto, está nas havaianas e bermudas. Ipanema, suas muitas garotas, seus hotéis também: inacessíveis e desejados como o mar. De mar é o céu alaranjado avistado no mirante do Leblon, o Pão de Açúcar sendo engolfado pela escuridão da noite. E o Corcovado, solitário. Como o mar.
A Barra, sua classe média meio insegura: tem o mar na barriga. Tem mar nessa multidão de múltiplas origens, furiosa e arrebatadora.
De mar é o Cristo, braços abertos, decidido a abraçar o próprio mar, certo da sua impotência ante a hercúlea tarefa. E se cala. Cristo e o mar. Também não acreditam na beleza do que fizeram. Preferem não falar. E a serenidade de seu silêncio é a mais expressiva descrição da Cidade Maravilhosa.
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