Alguma utilidade?

Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.

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domingo, 27 de maio de 2012

Depois de nós

 E porque de repente deram de me perguntar o que éramos nós. Na hora, percebi que não sabia. Mas algumas semanas depois, a compreensão invadiu-me violentamente. Nós (ou, pelo menos, o melhor de nós) somos uma noite fria de sábado no bar mais calmo da rua mais agitada da cidade mais desembestada do país. Somos essa dimensão apartada do tempo-espaço, nem fora nem dentro do girar voraz da vida real.
 E na minha mente, os versos da música “Paciência”, do Lenine: não é que a vida peça um pouco mais de calma. A vida se gasta em caos e sabemos que isso é inevitável. Contudo lá, nesse momento, nós conseguimos ser, sem medo do verbo de estado mais permanente, ainda que cientes da efemeridade da situação.
  E somos tudo: os mesmos velhos e empoeirados sonhos de infância, as cansativas utopias de adolescência, as desilusões de sempre a encarnar em cada espaço vazio... Agora, e pela primeira vez (será a última?), não os preenchemos (os vazios) todos com palavras.
 E, sobretudo, somos a beleza preservada de tudo que poderíamos ser se fossemos nós. Preservada, porque hipotética: quente na noite mais fria do ano, harmoniosa em meio ao vão movimento frenético. Gosto de nós assim, ininterruptos em cada estado de alternância.
Mas, depois de nós, ainda há a vida real. E nela, a todo o momento, só sei me perguntar: o que há depois de nós?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sobre o admirável mundo novo

No admirável mundo novo, ouvimos “Radio Ga Ga” em “Ipods”reluzentes e nem nos damos conta do tamanho da ironia que há nisso. E nas cidades grandes passeamos no meio de um show de vitrines coloridas, espreitando mil reflexos do ego: maximizamos o “eu”, mas precisamos domar seus fantasmas com pílulas demais de Prozac.
No admirável mundo novo, nossos fins de semana promissores terminam em metrôs lotados às sete da manhã, sob o signo da embriaguez de fins de festas, com a solidão dilacerante ditada pelo barulho da máquina e o profundo desejo de desligar.
No admirável mundo novo, falamos de diversidade e construímos pontes, mirando grandes transformações. É fácil ir, é fácil vir e é normal rir escandalosamente do que não se enquadra, do que não cabe na multidão anônima, enfurecida, entediada e obscenamente homogênea.
No admirável mundo novo, acreditamos um dia que faríamos diferente de nossos pais. Mas no admirável mundo novo perdemos tanto tempo maldizendo a heranças de nossos pais que esquecemos de construir a nossa. Aliás, no admirável mundo novo não importa muito o que fica, tampouco o que passa, mas apenas aquilo que eternamente virá. E será construído por nós, embora não agora: somos jovens demais, temos tempo demais.
No admirável mundo novo, ensinaram-nos que é belo ser jovem e é belo ser destrutivo. Destrutivo, porque jovem, entenderíamos a vida em sua intensidade e beleza e acharíamos o caminho da liberdade. Mas chega uma hora em que intensidade também entedia e, no admirável mundo novo, curamos o tédio com mais tédio em escritórios apertados e promessas futuras de grana e glória.
No admirável mundo novo, é meio ridículo ser sonhador. E é fácil ter muitos projetos e perdê-los pelo caminho. Há velocidade demais no admirável mundo novo e aprendemos a deleitar-nos com o desmanchar-se constante de tudo que é sólido, com o espetáculo voluptuoso da civilização ensinando-nos a acompanhar o girar ininterrupto das engrenagens.
E há tantas coisas admiráveis no admirável mundo novo que estamos constantemente obcecados em contemplá-lo e asfixiar-nos nele. Eternamente Narcisos, convictos da imensa beleza de nosso progresso, mais irmãos do concreto e do silício do que do próprio ser humano.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Algum aforismo

Alguém certa vez me disse que rodoviárias ainda eram rodoviárias. Há desvãos para a indiferença entre as plataformas, donde mendigos assistem cansados o vai-e-vem afobado dos transeuntes. Persistem as janelas para o aceno final, o primeiro olhar de saudade e a frágil garantia de retorno. Existem as intermináveis vitrines abarrotadas de guias de viagem, para aqueles que preferem a tensão prévia ao momento de febre. Em contrapartida, mochileiros exemplificam a persistência solitária dos que buscam incessantemente o instante do gozo . As palavras cruzadas são para os que se entediam com as paisagens de longos percursos. E remédios para o estomago atendem àqueles que detêm o olhar tempo demais sobre as mesmas paisagens. Os batedores de carteira advertem os que são movidos pelas ânsias inconseqüentes. A disciplina rígida de horários impulsiona os que hesitam demais em embarcar. Ante tudo isso, ocorreu-me que talvez rodoviárias fossem metonímias da vida.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sobre lembranças

Andar nos lugares tantas vezes já andados, mas que, por certos períodos, pareceram inexistentes. Enfurnados no porão do museu, há tempos longe de catálogo, sob panos mofados, ainda estão lá. Mesmo que não vistos, permanecem: ocupam espaços invisíveis e impalpáveis, conquanto pesados. E a volta daquele medo infantil que vinha com a sensação de estar muito longe de casa. Sim, aquele temor absurdo que brotava quando, depois de tanto tempo tão longe, duvidava se minha casa ainda estava lá. Ela ainda existiria, com sua alma repleta de aconchego? Alguém mexera no meu brinquedo preferido?
Essa era a parte que mais doía. As coisas e pessoas que nos definem ou nos definiram continuaram vivendo na nossa ausência. E é a distancia que se abre entre o interno e o externo, o alheio que vive em nós e sem nós, que macula toda a chance de imutabilidade das lembranças. É, até as lembranças mudam. Quem dera se fossem sempre conforto e aconchego como a casa distante que, mesmo depois de tanto tempo, continua igual.
Mas nunca são as mesmas. A sina das memórias é mudar e pedir que nos redefinamos para caber na nova cama, diferente daquela que deixamos antes da viagem. Encolher ou aumentar e resignar-se, por ver o melhor brinquedo quebrado. O melhor. No fundo, somos também os mesmos medos de criança. Somos tanto e tão intensamente o passado que falamos demais do futuro, cantamos em datas comemorativas e dizemos da memória como dádiva. Sempre presos no museu, vemos muitas vidas nas janelas, muitas histórias nas molduras e secamos em pó e traças, sem entender que o que será é tão somente o que já passou.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Nascido em 1991

Nascido em 1991, cheirava tédio da cabeça aos pés. Era aquele cheiro ocre das coisas que vão e vêm pré-determinadas, já ditas, mas capazes de se esconder entre cochichos, bocas de lado e sinais sutis em festas de natal, almoços familiares e na praça em que sempre se bebe com os amigos. Vidas que se chocam e se abastecem, mas não! Não para os nascidos em 1991, que só conhecem o medo da confiança coletiva. O medo e o cinismo. O cinismo que não põe a mesa nos almoços familiares e nas festas de natal, nem enche os copos nas bebedeiras de praça.
Nascido em 1991, adorava dias nublados e músicas que só são ouvidas, cantadas e até mesmo compostas em dias nublados. Porque dias nublados anunciam sempre a grande tempestade que aqui, abaixo dos trópicos, geralmente nunca vem. Na verdade, nascido em 1991, sabia sempre de como a vida é vazia quando se está falando sobre o tempo.
Mas a propósito disso, nas raras vezes em que a chuva vinha, tinha, assim como todo nascido em 1991, medo dela e dos ruídos que ela produzia na TV. Lembravam a ele sempre das antenas no espaço profundo retransmitindo sinais num universo de vácuo e imensidão. Era da solidão das gentes que esses ruídos falavam. Sobretudo nascido em 1991, não queria crescer num mundo sem grandes ideais para ocupar a mente nos domingos ao fim da tarde, quando o sol se põe e existe uma dor tão pungente dentro da gente que a gente se entope com ”talk shows” cheios de ruídos do espaço profundo e, sem muros para nos conter, só queremos muito é morrer.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Se lembra do futuro que a gente combinou?"

Abriu com calma o envelope. Dentro, apenas um CD. Ficou algumas horas sentado tentando entender a razão daquilo. Depois de tantos anos, sempre nesse precipitar-se vertiginoso, nesse espaço de idas e vindas que só anunciam e não concretizam, de repente, ali estava uma prova material de que ela ainda se lembrava. Antes de ouvir, entregou-se à memória.
Algumas coisas só se entendem do começo ao fim. Outras, destacando-se do todo. Às vezes, um misto dos dois. Veio da adolescência. Talvez seja um bom ponto de partida. Só se lembrava de ter notado que ela era linda. E também que usava uma camiseta dos "Beatles". E por ser a garota linda que tinha uma esquisitice em comum com ele, achou por bem falar “oi”. Já sabia, até antes disso, que ia se apaixonar.
Os primeiros meses foram para planejar a vida. Não que o presente não fosse bom, mas urgia combinar o futuro. Não podiam crescer naquele lugar onde o excesso de decoro nauseava e o maior defeito das pessoas era o perfeccionismo. Ele até entendia porque odiava as boas aparências e os indivíduos adequados, ele mesmo a expressão da inadequação e da insegurança. O que tanto fascinava-o era que ela também odiasse: ela, tão obscenamente bela e bem-aceita.
Planejar também embriaga, mas era assim: a vida correria para as metrpópoles, ambos teriam uma profissão de importante função social e fariam algo pelo mundo. Nossa, como ririam da exitência medíocre das pessoas que discutem no almoço de domingo qual é o melhor frango assado da cidade.
Claro que deu tudo errado. Aliás, até hoje ele não suporta ouvir “Como Nossos Pais”. Fizera uma volta tão grande para fugir do futuro determinado, justo para voltar ali. Ela odiou a rotina das metrópoles e começou a dizer que o amor deles só servia para períodos de planejamento. Era impossível viver com alguém tão pouco prático.Retornou à cidade-natal e se casou com seu vizinho de infância, engenheiro, estável, encarnação das coisas que estão em seu devido lugar.
Quanto a ele, o amante abandonado, acabou desempregado aos vinte cinco. Teve de aceitar um bico na empresa do pai. Casou-se com uma moça dócil, ela mesma a encarnação da invisibilidade. Se era para não viver o que sonhara, pelo menos viveria sem ser visto e sem se ver.
Liberto das divagações, podia escutar as próprias batidas quando saíram os primeiros acordes do rádio. Não conteve o choro: até enxergava a nostalgia emitida pelos primeiros versos de “Maninha”, de Chico Buarque. De repente, ele estava ouvindo sua amada lhe perguntar assustada na boca da noite: “Se lembra do futuro que a gente combinou?” Mas eles não eram nem se sentiam mais crianças.

domingo, 4 de setembro de 2011

A Questão insolúvel


Por errar caminhos, perdi-me de mim. E enquanto observo a realidade congelada dos dias que se arrastam apenas com aridez e tédio empoeirado, penso de novo em tudo que não foi. A vida que não foi é tão sublime e bela, que sempre decido vivê-la. Por vivê-la demais, cheguei aqui. Nunca estive tão longe dela. Nem de mim.
Meus tempos de “novo tempo”, de crer que o presente é apenas o ensaio para o grandiloqüente espetáculo que ainda virá, estão se esgotando. E aí crescer não é expectativa, mas enfado doloroso.
Com a vista turva, caminho solene e trôpego por entre gentes e lugares com os quais não irmano. Há rostos distorcidos, mão avulsas gesticulando, espaços de inocência que se volatilizam e nuvens pesadas de dor. Soberana, a dor impera. E dissolve: eu e a vida que tenho. Pobre de mim, ainda resta a vida que nunca terei, intacta e fulgurante, a zombar do homem que não soube e nunca saberá construí-la.
Vou alugá-la por um tempo, alugar o eu mesmo que perdi. Quem sabe assim, minha cota mensal de redenção compre provisoriamente um pouco dos planos que fiz, refiz e sonhei para mim. Mas bem, talvez “comprar” não seja um bom verbo. Alugar não é comprar e locatário é proprietário incompleto. Assim, sigo com a vida alugada condenada à incompletude perpétua? Ou escolho o não? Não apostar no planejado, aceitar o “tudo fora de lugar” e arrastar os anos vindouros numa vida clandestina, tão alienada de mim mesmo? Eis a questão insolúvel.