Alguma utilidade?

Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.

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domingo, 11 de agosto de 2013

Sobre amantes e tango

Para Carol S.

Por que pensar sobre amantes e tango? Todos intuem a batida comparação, mas olhar atento para as semelhanças entre o tango e os amantes ensina sobre existência e memória. Dos amantes e do tango, sabe-se da fúria. A fúria esguia que apossa os corpos e derrete o espaço, engolido na coreografia frenética do desespero. Dos amantes e do tango, vê-se que passam apressados pelo palco, como também não olham espectadores. Donos do mundo ao redor, pisam com força em solo desconhecido, agitam-se freneticamente nesse local de tudo e nada que se chama“nós”.
Pois no tango, a dança é sempre a dança da última vez e, portanto, o domínio do espaço e dos corpos é tão pleno quanto irresponsável, pois espaço e corpos se entregam sem pensar para a ciranda apaixonante e demolidora. Também assim são os amantes, desde que o mundo decidiu nomear assim todas as pessoas que passam apressadas e inteiras, tão ávidas quanto entediadas.
Os amantes zombam de tudo porque vivem na dança da ultima vez, com um diferencial: a crença na dança de tempo infinito. Se sentem que durará para sempre essa entrega irresponsável, se apostam a alma na leveza dos corpos, nos pesos que se dividem, então podem viver um pouco a sensação de que tem um mundo só deles. O mundo dos outros está ali, apesar do mundo deles. Eles já leram muito sobre isso, sabem que repetem o padrão de todos os amantes, podem odiar sentimentalismo, mas não adianta: todos os amantes dançarão tango mais cedo ou mais tarde, viverão como se sob a crença de que algumas ingenuidades podem ser infinitas, de “quem sabe ao menos nossa inocência não será castigada e nossa felicidade sairá impune?”
Mas nenhuma dança tem tempo infinito, embora toda dança tenha dois, três ou múltiplos tempos. Há o tempo dos dançarinos, o tempo da música, o tempo íntimo de cada um, o tempo do espaço que abriga o movimento, o tempo da memória que escolhe os flashes únicos que merecem ser guardados. Talvez alguns desses tempos sejam infinitos, mas, de forma estrita, uma hora a cortina se fecha e o espetáculo tem fim. Isso não necessariamente significa o fim dos amantes. Há muitas saídas, algumas boas, algumas ruins, outras péssimas.
                Espera-se dos amantes que não se tornem dançarinos de tango para turistas, aqueles que emulam um passado sem legitimidade, usam uma tradição espontânea de forma artificial e assim desconstroem a memória, criam lembranças outras, fabricam histórias que nunca foram. Não se deve culpá-los, porque geralmente precisam ficar presos num passado fantasma para encontrar sentido no presente. Contudo, são infelizes.
A melhor saída de palco, o melhor fim de dança para os amantes que dançam tango é aquele no qual eles olham para o público e agradecem. Assim, descobrem que o mundo dos outros existe, apesar do seu. Daí, podem conseguir até um bom lugar na platéia para assistirem a próxima dança. De repente, se o amor for grande o suficiente, se derem alguma sorte e se tiverem realmente boa vontade, conseguem se sentar lado a lado. Dão lugar para a dança de outros amantes, guardam todo o espaço que desconstruíram e roubaram durante a própria dança dentro da memória. Lado a lado, podem voltar para a casa, para talvez um longo tempo que os espera juntos, para talvez esse mundo prismático de todos, de cada um deles, dos outros, de nós e de vocês. Pois os amantes da vida toda, aqueles que sobreviverão ao teste dos anos que passam, do lamento nostálgico da vida vivida, são aqueles capazes de dançar tango sozinhos no seu quarto escuro depois de um dia sujo de rotina gasta.


sábado, 20 de abril de 2013

Sobre a temperatura humana


               Você já pensou sobre corpos que se abraçam na madrugada improvável? Andei pensando muito sobre madrugadas improváveis, caro amigo, bem como sobre a alta probabilidade dessas horas escuras, impassíveis e quentes. Quentes na temperatura humana. Digo temperatura, pois não gosto da ideia de calor humano. O calor sequer é uma propriedade dos corpos, tem essência transitória. Na temperatura própria do humano (e isso nem é de medida objetiva, gosto de pensar que somos de temperatura irmã dos febris e hipotérmicos também), dois corpos não trocam calor, apenas colocam suas temperaturas lado-a-lado, dividem aquilo que é propriedade mais intrínseca do atual estado de seus descaminhos.                                     
         Essa ideia, sei bem o que pensas amigo, pode soar mais solitária. A mim, também soa mais permanente, revestida pelo silêncio de eternidades que só o tem as madrugadas: ainda só, aproximamos infinitesimalmente nossa temperatura da do corpo semelhante e, com essa aproximação, não destruímos a integridade dele (nem a integridade da dor, nem a da solidão, nem a da beleza), mas chegamos o mais perto possível de entender o alheio sem invadi-lo, como se fosse o genuíno ato de solidariedade. Aproximamos tanto que ficamos a um sopro de tocar o espaço de vertigem ao lado, mas nunca o fazemos. Ainda bem, mal damos conta da nossa vertigem. Bem sabemos como essa distância irrisória dói, mas é essencial.
              
           Vemos o abismo de solidão que nos cerca, mas acenamos para o semelhante do outro lado dele. Talvez combinemos um horário na mesma madrugada para vermos a mesma lua e lembrarmos que sentimos o mesmo abandono e aconchego quando olhamos o céu vazio e nos damos conta de que nem a temperatura de todos os humanos somados aumentaria sequer um grau centigrado do frio galáctico do universo infinito. Sobre isso, velho amigo, andei pensando que no espaço humano, quase inexistente, que se coloca entre as temperaturas de dois corpos lado-a-lado, algum atrito talvez acenda uma fogueira. E fogueiras, em noites serenas de almas silenciosas, têm o poder de trazer paz. Essa bela imagem, quase soprada aos meus ouvidos numa madrugada improvável, deu-me um esboço da beleza da nossa condição: quase ouvi a madrugada, peguei um sussurro espaçado ao redor. Lembrei que, muitas vezes, é fácil ser feliz ao lado do abismo: basta parar de olhar para baixo e olhar para frente.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Carta à irmã


            Minha pequena, escrevo para relembrar da última vez em que você me fez feliz. Achei que seria uma forma singela de agradecer e talvez lhe ajudar a lembrar da última vez em que você foi feliz.  A vida vai correndo mais manca, teimosa e esbaforida e esse é o tipo de coisa que as vidas esbaforidas acabam esquecendo, pois demandam tempo demais apenas recuperando o fôlego.
            A última vez em que você me fez feliz, eu tinha três e tantos anos e havia um bebê de olhos grandes na cama de meus pais. Sim, lembro claramente dos olhos, sempre esbugalhados e estrábicos: fundos e inquietos demais, assim como devem ser os olhos das pessoas cuja alma não cabe no corpo. Lembro do ciúme, da consciência de que agora a atenção dos velhos seria triplamente dividida. Mas lembro muito da felicidade: uma felicidade egoísta, é fato, que advinha sobretudo de eu ter visto, de relance em seus olhos ternos, a mesma inadequação solitária que me consumiria toda a juventude vindoura. Ali já éramos então irmãos consanguíneos, mas também irmãos de invisibilidade: seríamos os únicos a reconhecer a dor mútua em ambiente lotados.
            A última vez em que você me fez feliz, eu devia ter cinco e tantos anos e vi seus primeiros passos inseguros. Eles eram cambaleantes e determinados, talvez como o de todas as outras crianças. Contudo, nunca tinha visto uma criança andar pela primeira vez antes. De qualquer forma, eles me lembraram que a idéia de ficar de pé e ir adiante não era tão óbvia e natural como parece para os adultos andantes. Ir adiante era meio trôpego e assustador também. E você andava um pouco e sentava e fui feliz por ver que você não tinha vergonha de parar para tomar coragem: eu também sempre precisava de paradas, mas as fazia escondido, porque vivia cercado por pessoas que preferiam cair no chão a parar. E eu me sentia tão pouco destemido por não conseguir ser como elas. Você me mostrou que talvez não havia problema em ser como nós.
            A última vez em que você me fez feliz, eu devia ter uns doze anos e lia para você. Você provavelmente nem prestava atenção e achava meio chato. Só que a fase não era boa para mim e você ouvia por horas, porque sabia que isso me deixava melhor, fazia-me sentir útil. E a sensação de que você estava disposta a fazer algo que te entediava apenas para me deixar bem me fazia imensamente feliz. Você era tão criança ainda e era tão gentil da sua parte e eu sentia tanta hostilidade naquele tempo que a pequena gentileza me fazia derreter.
            A última vez em que você me fez feliz, eu partia para outra cidade, grande e distante. E tinha medo. Você tirou seu broche preferido da gaveta e me deu para levar comigo. E em todas as noites solitárias e frias demais, ou simplesmente tristes e angustiantes (daquelas em que a escuridão se torna palpável e subtrai disposição física como uma esteira desregulada), eu olhava para ele e me sentia um pouco mais em casa. Era apenas um pedaço pequeno de ingenuidade e consideração e me acalmava tanto. E eu fiquei feliz por entender o quão poderosos podem ser os pedaços pequenos de ingenuidade e consideração. Foi você quem me ensinou isso.
            A última vez em que você me fez feliz, eu voltava cabisbaixo e derrotado da cidade grande e distante e você me ajudou a carregar a mala mais pesada que você. Depois, deu-me um abraço e disse que ainda podia me amar mesmo eu desistindo às vezes. Daí eu lembrei que isso fazia sentido, já que você não teve vergonha de sentar no chão e parar um pouco durante seus primeiros passos. E porque você também tinha os olhos esbugalhados da inadequação. E no fim, entendia profundamente essa claustrofobia de espaços extensos e solitários.
            Na verdade, há tantas lembranças da última vez em que você me fez feliz que me dei conta de que você vem me fazendo feliz a vida toda. Só por estar aí, com seus planos, idéias, sonhos, lembrando a melhor versão daquelas pessoas com humanidade em excesso, aflorada demais, sempre expostas e queimando. Ao mesmo tempo, com tanto medo dessa humanidade ainda ser insuficiente no fim das contas. Dela faltar com a disposição necessária para trazer alguma felicidade. Ou dela ser espancada com tanta agressividade circundante. Entendo tudo isso, minha pequena, mas ela também traz recompensas para os que insistem nela. Na verdade, não insistem, estão condenados, porque isso tem mais a ver com carma e olhos. Não esqueça dos olhos.
            Então, é justo esse texto existir para registrar que o excesso de humanidade me fez tantas vezes feliz. Quem sabe outros sofram da mesma doença que você e entendam que ela também é uma cura. Quem sabe, quanta presunção da minha parte, ele ajude você também a achar parte da sua cura. Depois, você pode engarrafá-la em broches-pedaços-de-ingenuidade e distribui-la por aí também. Assim, deixo meu agradecimento profundo. E meu mais sincero testemunho de afeto, pequena.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Brasília é uma festa (de debutantes)


       Tinha oito anos quando ouvi meu pai sentenciar pela primeira vez: “Brasília é uma festa.” Corriam imagens do desfile de sete de setembro pela televisão e eu, obviamente, achei que aquelas palavras referiam-se unicamente à celebração cívica. Até então, também pouco sabia da história da cidade, de sua construção suada no coração geográfico do país, estimulada por devaneios febris e otimistas de concreto armado.
            Veja bem, caro leitor, meu pai sempre falava de Brasília. Parecia acreditar nela, meio daquela forma que o interlocutor de Don Vitor Corleone diz acreditar na América, no início da parte um de “O Poderoso Chefão”. Meu pai mudara-se para lá com dezessete anos e pouco dinheiro no bolso. Voltou para cá com menos ainda, mas com um diploma e um paletó de trabalhador honesto. Se minha Brasília, aquela na qual nunca pisei, sobrevivia em minha mente apenas a partir da antítese “lá” e “cá”, meu pai era o agente que a promovia, o esforço constante em agregar os extremos da contradição.
            Para além de meu pai, Brasília sempre me chegava a partir de epítetos jornalísticos ou históricos. Ora “Brasília era o futuro” ou “A crença otimista num Brasil que vai para frente”, ora era também “Um pesadelo de cimento”, “Uma loucura inconseqüente” e “A cidade da corrupção, com um dos mais altos custos de vida do país.”
            Também adolesci e passei a sonhar com o longe. Por conseguinte, também sonhei com Brasília e criei minha própria visão lírica da urbe fantástica. Brasília tinha de ser como “Tropicália” de fato, com todas as nossas contradições de modernidade e atraso. E ouvia sobre Niemeyer, Lúcio Costa, curvas de concreto e como elas eram a síntese perfeita entre peso e leveza, suavidade e opressão.
Não demorou também para que eu projetasse em Brasília um pouco do ódio que todo jovem tem do pai. Comecei a enxergar naquele projeto de cidade um ridículo enorme, veja bem, aquele nosso desejo de parecer civilizado segundo padrões ocidentais. Sim, a marcha civilizatória enquanto pretensão risível também era a Brasília de minha adolescência.
O tempo me faria relevar esse aspecto: entendi que não podia julgar os protagonistas daquele passado recente com os valores da minha geração. Só os homens da década de cinqüenta entendem o espírito daqueles anos frenéticos, cujo maior fruto é a “cidade dos chapadões”, esse elefante branco selvagem que é, ao mesmo tempo, elefante de circo.
            Nem tudo isso me fez entender as palavras de meu pai. Fui entendê-las apenas recentemente, quando assistia aos desfiles das escolas de samba pela televisão, com todas aquelas alegorias e sonhos antigos encarnados num devaneio que finda em quatro dias. Minha irmã exclamou: “O Rio é uma festa.” Pronto, foi nesse infinitesimal momento, prezado leitor, que o sentido mais profundo das palavras de meu pai revelou-se para mim.
            Brasília é o nosso verdadeiro carnaval, a encarnação de todas as nossas aspirações de país, de todos os vícios históricos que não nos deixam concretizá-las. É um parêntesis, um entreposto geográfico cravado no interior do território, ao mesmo tempo parte dele, ao mesmo tempo um estrangeiro. É a nossa mais bem acabada alegoria, a nossa verdadeira festa de escapismo, mas também nossos desejos mais profundos e nossas melhores intenções.
 Brasília é uma festa e eu estou pronto para amadurecer e me libertar de meu pai. Sim, libertar-me, pois sei que naquela cidade está tudo o que queremos ser e tudo que queremos deixar para trás, embora não saibamos quando e se isso vai acontecer. Parece que algo deu certo no plano todo: Brasília é, mesmo que não daquela forma inicialmente planejada, a minha e a nossa verdadeira emancipação.


(Crônica classificada em sétimo lugar no Concurso "Brasília é uma festa", promovido pela Fundação de Apoio à Cultura do Distrito Federal  - FAC - DF)

domingo, 25 de novembro de 2012

Sobre a Terceira Margem e alegrias roubadas


        Eu tinha uns quinze anos quando ouvi falar da Terceira Margem pela primeira vez. Estava lá, no conto de Guimarães Rosa, a história de um homem que abandona família, filhos e vida antiga, constrói uma canoa de madeira e muda-se para um rio. Não para a margem direita, nem para a esquerda, quanto menos adiante ou atrás. Sua canoa está no meio do curso, ao limbo, ao sabor de uma correnteza fraca demais para impeli-la ao fim. Ali ele passa sua vida até os derradeiros dias.
O que me lembro da primeira leitura é o estranhamento. E depois  a súbita certeza de que eu sabia o que era a Terceira Margem. Tratava-se agora de construir uma canoa. Veja bem, meu caro leitor, não foram fáceis os quinze anos. Como não o são os vinte, como não são interessantes os tempos em que sente-se obsoleto num mundo feito para você: o jovem dinâmico. A mim, restava aquele silêncio insondável de noites solitárias em urbe pequena, aquela alienação torturante que na vida também é, para lembrar Drummond, “porosidade e comunicação.”
Assim, não tenho saudades de nada, porque sempre tenho saudades de tudo, até do que não vivi. E por isso fervo muito e estou sempre meio trôpego: se a Terceira Margem diz algo, ela diz das águas que acalantam e lavam para aliviar o corpo que se expôs demais ao sol. Sim, a minha Terceira Margem é aquela dos espaços secretos com janelas indiscretas: espaços meus e tão pequenos que, só pela sensação de caber neles, fazem-me sentir adequado. Espaços de palavras e memórias, alegrias colecionadas meticulosamente entre estações de mesmice egoísta.
Agora não torço mais para não sofrer, não peço mais para não enfrentar: a verdade é que talvez ainda não tenha sofrido o suficiente para me tornar uma pessoa da qual me orgulharia um pouco de ser. Peço por mais madeira para a canoa da Terceira Margem, aquela que ficará estacionada no limbo e por alguns instantes roubados (que não estarão dentro da contagem cronológica do tempo, pois são instantes de lenda) me trará todo o aconchego, toda delicadeza agressiva e toda a agressividade delicada para terminar a travessia nos derradeiros dias.
Com pouco tempo, descobri que todas as madeiras são tão somente memórias de pessoas, a forma como elas vivem em nós. Ontem tive a súbita certeza que até agora você é uma das mais fortes, uma das poucas que não entrará em decomposição com o corrosivo amargo de tempo cético trazido pela vida. E esse texto é só para dizer isso, uma confissão urgente, um necessário registro sobre tempos cuja alegria ingênua precisará de provas para ser revisitada no futuro.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sem fôlego


Ainda ontem você me perguntou por que eu era sempre tão melancólico e eu não soube responder, justo eu, que sempre julgo ter a resposta certa para tudo, mas, veja bem, de melancolia só sei que dói ainda mais fundo na alma depois que perdi a crença em almas, como também sei que me alimenta e vivo sempre satisfeito com minha porção diária de tristeza, minhas várias imagens do sol se pondo no fim dos prédios, no céu alaranjado preguiçoso e sem esperança e na certeza de que morrer seria mais fácil, contudo, eu quero viver, eu gosto da vida e acho que vou fazer coisas úteis ainda, então percebo que isso que me faz querer viver é arrogância, daí quero morrer de novo e você fica cansada de toda essa ladainha, eu sei, meu amor, o que fazer com tantas perguntas, apenas devia te abraçar, te acariciar, transar e me calar, até porque são as mulheres que deviam falar e chorar, segundo a tradição patriarcal ocidental na qual me educaram sem eu pedir, antes eu acreditava tanto nas respostas, não sei quando comecei a flertar com as perguntas e elas foram ficando mais sedutoras e eu mais no fundo do aquário, mais seco imerso mar, mais ofegante no meio da corrida, e eu sei que me avisaram para ir devagar, para tomar fôlego às vezes, só que eu achava que esta era uma prova de cem metros rasos, eu dava conta sem parar, mas depois vi que a vida é uma prova sem marcação de distância, ela transborda para todos os lados e só acaba quando você decide levantar para respirar.

sábado, 8 de setembro de 2012

Sobre onde estamos (será que estamos indo?)


“Cometemos o pecado de não saber perdoar/Sempre olhando para o mesmo lado/Feito estátuas de sal./ Hoje o tempo escorre pelos dedos da nossa mão./Ele não devolve o tempo perdido em vão.”
(Engenheiros do Hawaii – Depois de nós)

Houve um tempo em que acreditei que haveria uma solução para todo esse lance de maturidade. Nunca entendi bem minha geração. Hoje acho que nosso maior erro foi não saber perdoar. Temos tanta raiva e ranço e mágoa dos que vieram antes e do mundo que entregaram para nós que nem cogitamos olhar para nossa volta.
 Essa ladainha pode parecer velha se você leu Freud e suas idéias sobre o “mal-estar na civilização” ou se você curte Sartre e conhece o seu maior conceito-grife, aquele que fala da tal náusea.
                Mas penso que nenhuma geração antes julgou ter tanto o direito de não perdoar. Outras podem ter encarado barras maiores, mas ainda assim tinha uma mágoa bem menor. Alguma coisa parecia sustentar o cotidiano árido. Podia ser uma sina de dogmas acadêmicos e herméticos para sistematizar e canalizar a revolta. Havia a Igreja também, a ciência e seus discursos de saúde. Tudo isso podia pesar naqueles apertos extremos que precedem as grandes atitudes inconseqüentes. Parafraseando Rappa, havia um silêncio, mesmo que por um instante infinitesimal, a preceder o esporro.
                Nós costumamos dizer que nos tiraram tudo isso. A bem da verdade, não nos tiraram nada. No máximo, educaram-nos para a fluidez absoluta e aí fica difícil fixar-se em tábuas rasas de salvação e cilício.
Hoje você pode ir a Igreja, mas tem que emendar um happy-hour depois, até porque adora falar que as instituições religiosas estão falidas ante o monopólio da razão e da ciência. Contudo, no cigarro seguinte, você lembra que os discursos científicos também são um engodo para legitimar o poder numa sociedade tecnocrática e alienada. O discurso social você larga depois do baseado e o político, então? Esse você abandona a cada minuto no espetáculo-midiático nosso de cada dia.
A culpa é de todos. Mas nosso problema maior é não ver que a maior parte dela é nossa. Não vemos porque, insisto e repito, somos vingativos. Não perdoamos, porque a todo instante choramos de inadequação. Há muitas imagens, há muitas redes e vemos tantas vidas possíveis e tantos mundos distantes em tantas vitrines coloridas e psicodélicas que não podemos querer um, temos que querer todos.
                Sentimo-nos sempre como “Carolina”, da música de Chico Buarque e Caetano Veloso, a menina que deixa a vida passar na janela e não vê. A verdade para gente, contudo, é um paradoxo perverso: na mais mal acabada paráfrase do mito da caverna, de Platão, vemos uma janela como um muro de infinitos instantâneos fotográficos e paradisíacos inalcançáveis. O mundo bomba lá fora. A festa corre vinte e quatro horas e não, não podemos perdê-la: não queremos ser como Carolina. Carolina é triste e só tem quatro amigos no Facebook.
                Mas nossa janela é virtual. Simbólica e abstratamente construída. Por trás dessa tela, há só o vazio. Contudo, diferentemente do mito platônico, no qual os personagens que ficam na caverna acreditavam que o mundo distorcido que viam era a única realidade possível, nós sabemos do vazio além do horizonte da nossa janela. E isso dói.
                Aí apelamos para todo o tipo de comportamento hedonista e egoísta. E achamos que temos esse direito. O direito de ser feliz, dizemos. Poderíamos ser mais honestos e dizermos: o direito de fugir sempre. Indo para todos os lugares. Indo para lugar nenhum. Justo, justificável? Claro que não. Alguém precisa ter coragem de encarar o vazio. E construir algo ali. Mais estanque, mais estável, mais seguro. Só que parece que poucos têm. Tenho medo do dia em que não haverá ninguém.
                Lembro-me da pré-adolescência reclusa, da época que escutava muito a banda Engenheiros do Hawaii. Para mim, seu mais belo hino de resistência e aceitação dolorosa do crescimento é a música “Terra de gigantes”. Nela, o eu-lírico pede à mãe que só o acorde quando o sol tiver se posto, pois ele não quer ver seu rosto antes de anoitecer. Hoje sinto que sol já se pôs há anos, a noite já cai pesada, mas ainda assim não queremos ver nosso rosto.