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Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.

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domingo, 27 de julho de 2014

Sobre a chuva

“Itabira é apenas uma fotografia na parede/
Mas como dói!”
(Carlos Drummond de Andrade – Confidência do Itabirano)

             Sempre quis escrever sobre a chuva escoando no concreto de ruas vazias e construções simétricas. Não sabia bem o quê naquilo atingia meu âmago. Os anos ensinaram-me que, na verdade, eu queria escrever a respeito de voltar para a casa. A chuva era só o elemento onipresente dos mesmos trajetos da vida toda, que cheiravam como essas ruas vazias lavadas pela chuva.
             Por que é tão difícil andar sobre as mesmas ruas da adolescência? A falta de originalidade do tema é evidente e tantos falaram melhor sobre isso, mas como lidar com esse desconcerto que turva todas as percepções? É possível seguir em frente sabendo-se andando em círculos, indo tão longe para voltar, sempre preso na geometria estéril e reta dos quarteirões silenciosos da juventude?
            Os amigos de outrora parecem amigos de sempre e o cenário de outrora parece estar esculpido nos meus olhos de hoje: tudo ainda esquenta e traz certo sentido de integridade, de agregação súbita de pontos dispersos, reforçando a crença na sabedoria e no sentido do acaso. Isso reconforta, pois repetir o mesmo tema e resgatar velhos personagens é perceber como ainda desempenho bem meu papel originário. Contudo, não impede a rápida eclosão de um segundo incômodo, disfarçado de humor nervoso: a necessidade de expressar o quão aliviado estou por ainda caber naquele personagem, que só é capaz de existir naquele palco de suposta inocência em que foi gestado.
          E isso é como confrontar o desesperado lirismo adolescente, os sonhos não tão antigos, com os rumos da realidade: parece que algo tremendo se perdeu. A energia louca e frenética de descobrir o mundo a cada esquina foi ficando mais cínica e só encontra sua verdadeira voz quando meus passos deslizam pelas pegadas do adolescente que respirava impúbere e impune. Mas o adolescente andava a pé, encharcava-se embriagado na chuva, sentindo-se tão dono de si e de todas as sensações amplas da dilatada, imensa, caleidoscópica vida que o esperava. Hoje, no carro, vidros fechados, tão poucas confianças, apenas a certeza da não-inocência e uma insuspeita tristeza permanente.
          É como se estivesse ainda no mesmo lugar, mas ele tivesse se tornado mais limpo, esterilizado, opaco, profissional, como filme remasterizado que perde o charme e a energia impetuosa que enche de tesão a vida. No fundo, todo cenário pronto põe em cheque aquele que fabricou meus olhos e realça as inúmeras discrepâncias gestadas pela distância do referencial. Duvido demais da minha percepção, mas não sei bem como testá-la, a água se acumula no pára-brisa do porvir e subtrai toda a visibilidade.
  A memória domina, cheia de lembranças não vividas e saudades. O ritmo da chuva é um ácido golpe para meu eu burocrático de hoje, engessado em meio a tantas vielas, sem saber qual rumo tomar, embasbacado por perceber como ainda não se livrou daqueles anos tolos de escolhas tolas, por não ter entendido bem que não havia tantas saídas assim daquelas ruas desertas, minúsculas e quadradas. Também cheio de raiva por tanta chuva tomada aos quinze anos: ela alagou minha roupa, colou-a próxima demais do corpo, penetrou meus poros sempre dilatados e encheu minha alma de melancolia. Se soubesse o quão fundo seria o dano das ruas vazias sob as mesmas madrugadas iguais, talvez pudesse ter levado mais a sério as precauções a serem tomadas em dias chuvosos. Até porque, no meu íntimo, sei que, por um lado, quero desesperadamente encontrar as fissuras que me permitirão quebrar o concreto e construir a verdadeira saída. Mas, por outro lado, se choro profundamente, é pela sensação de que nunca mais vou recuperar aquela vontade desesperada de tomar chuva sobre o corpo todo exposto, devaneando possibilidades sem fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sobre o Vazio

                 Quando e tão logo passa a avalanche da rotina, dos dias sem conta reclamando de tudo ainda a fazer e sonhando com a vontade de desligar, sinto que o botão de desligar pifou. Mas quando reflito atento, a conclusão é ainda pior: preciso muito desligar, mas luto contra a tendência inercial do meu corpo ao desligamento. Desligar também é lembrar que é só isso, que se não preenchidas as horas que seguem com tarefas sem conta, que se não alimentada a enorme ilusão de ser “sabe-se lá como” importante, o vazio apenas se dilata. E eu odeio falar em vazio, soa como tristeza de garoto de classe média alta, de habitante de país escandinavo, de indivíduo que tem todos os predicados para ser feliz e apenas chafurda na melancolia, nos seus quadros cinematográficos de desertos em preto e branco, onde há paisagens desoladas de amplitude asfixiante, liberdade perigosa e a imensa sensação de deslocamento, de não pertencimento , de insignificância...
                Nem sei sobre o que é isso que agora escrevo, é quase como a percepção de que a agitação é raivosa, mas que preciso cada vez mais dela para não olhar para a agressividade que tantas vezes se insinua na superfície trêmula da rotina. O pior é a compreensão da importância do rolo compressor que só me deixa respirar para reclamar dele entre uma xícara de café e outra. Digo demais sobre o que faria se tivesse total liberdade, mas a total liberdade me torna melancólico, ela é como as paisagens áridas dos westerns em preto e branco que habitam minha mente em noites mal- dormidas: assustadoramente irresistível e destrutiva. A liberdade é o medo de mim mesmo, é o que sempre busco apenas porque tenho certeza de que nunca atingirei. Busco a liberdade como o ente que alimenta a narrativa fraudulenta do meu eu, aquele que diz sobre quão magnífica seria minha vida se ela estivesse em minhas mãos. Aquela ideia abstrata que justifica a violência veloz de seguir em frente a qualquer custo.
                Para mim, o vazio talvez seja a exibição da fraude, o confronto com o medo da liberdade. Mas sei que essa noção do vazio ainda é incompleta, pois falta a certeza do deslocamento. É a sensação de deslocamento, de estar sempre no lugar errado, que me faz correr. Talvez tenha sido ela que impulsionou a Marcha para Oeste, responsável por tanto sangue derramado e por minhas horas demais gastas em frente a uma das poucas atividades que me faz parar: a abstração imagética dos vinte quadros por segundo, esse buraco negro no real que preenche meu vazio com mais cenas para retroalimentar a melancolia e o frenesi.             
               Saber do deslocamento é correr cada vez mais na busca de sujeitar espaços novos, como se não houvesse outra relação possível com o desconhecido que não a sujeição. Quando penso em tudo isso, me assusto e me convenço de que devo aprender a parar. Só que ninguém me ensinou a parar e apenas contemplar a paisagem imensa. Se eu paro, caio na tentação de acreditar que posso dominá-la à galope feroz. Porque sua imensidão me assusta. Seu silêncio me perturba. Sua calmaria me enlouquece. Sua solidão me destrói.
             O vazio, tão rebuscado nesse retrato imperdoavelmente afetado, também pode ser dito em termos muito simples e infantis: pura solidão. Não sei ficar sozinho, embora tema tanto esse ente desconhecido que chamo de outro. O outro é a imensidão que me deixa em pânico. Toda a imensidão de tantas coisas que gente humana pode ser: tanta coisa incrível, mas imprevisível. Previsível é o motor da rotina: só para frente, sem chances de retorno, sem escolhas originais. Talvez esse deslocamento seja apenas o medo infantil do outro, pois não sou tolo de alimentar a ilusão de que se pode controlar o outro. Um ser humano é assim, belo porque é como é. E tudo isso me faz entender que talvez o que mais me atraia na frieza em preto e branco das imagens forjadas (será?) é o calor humano que irradia delas, porque ele esquenta sem o risco de queimar, já que está preso na tela de projeção.

                O vazio nunca acabará, isso é fato. Só que existe uma possibilidade ainda não tentada: a de mergulhar fundo nele. E isso ainda é mais assustador do que gente humana. Até porque, não se faz isso sozinho: só se faz de mãos dadas com gente humana com tanto medo como você. E pode ser que isso, mais que todas as artimanhas ilusórias da rotina, realmente dê importância a vida. A jornada em direção ao outro: que isso dê uma razão de orgulho com a qual se possa desligar em paz.  Que seja a última cena que eu contemple antes de me dissolver na paisagem gigante, adimensional, céu e mar sem fim, vastidão indomável que tanto me aterroriza por lembrar o que sou longe das muitas xícaras de café: insignificância efêmera. E se há alguma situação em que uma efemeridade pode ser memorável, é aquela na qual ela é compartilhada e significada em conjunto.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sobre palavras como grilhões

Resenha do filme “A Hora do Show” (Bamboozled, 2000, Spike Lee) escrita para Aciepe “Direitos Humanos pelo Cinema”, oferecida pelo departamento de Sociologia da UFSCAR (Texto escrito em 2012)

   Em setembro de 2012, ganhou alguma notoriedade o julgamento que o STF realizou para deliberar se a obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, poderia ou não - e de que forma - ser distribuída nas escolas públicas. A obra claramente faz referência aos negros com estereótipos racistas, sobretudo nos diálogos entre a boneca Emília e Tia Anastácia. Entre grupos que se esguelaram em defesa da liberdade de expressão e outros que lutaram pela completa paralisação na distribuição da obra, pairou a sombra pesada do ciclo de fogo de nossa história: o desejo de apagar a permanência silenciosa do que não se mostra se debateu contra o medo premente das consequências de se assumir a verdade óbvia de que palavras e signos culturais não são inocentes.
   O caso brasileiro guarda analogias (e muitas diferenças também) com o cenário delineado por Spike Lee em seu filme “A Hora do Show” (Bamboozled, Spike Lee, 2000), possivelmente o mais polêmico de uma filmografia já conhecida por acender ânimos. Não se pode acusar o filme de apontar soluções fáceis. Do contrário, ele enreda-nos num labirinto que só escancara a persistência do que tentamos negar: das hierarquias invisíveis que se infiltram nas hierarquias oficiais e que marcam tensões racistas entre negros e brancos até quando os atores sociais supostamente
ocupam a mesma posição no campo.
   Pierre Delacroix, nosso protagonista, não é Pierre Delacroix (DamonWayans), e sabemos, de alguma forma, que ele tem ciência disso. Sua meta é simples: emplacar, como roteirista, seu primeiro grande sucesso na TV. Defende sua grande ideia como uma sátira. Ele faria uma remontagem escrachada dos shows “black face” dos séculos XIX e XX, carregados de piadas racistas, como forma de expor o absurdo através do exagero, da hipérbole: descamar os níveis
invisíveis do preconceito por meio de suas expressões mais gritantes e concretas.
   Se Spike Lee nunca poupou ninguém e já foi dito que o filme não oferece soluções fáceis, é evidente que tudo desanda. O show é um sucesso, vários conflitos raciais que estavam em banho-maria são escancaradas e, de fato, não sobra ninguém. No roteiro, claramente há um pathos central, uma hipótese a ser provada. E, no desenrolar da trama, as evidências parecem convergir para a tese de forma desconcertante: trata-se de denunciar a forma como a mídia e a indústria do entretenimento, criada num país racialmente cindido e operada majoritariamente por brancos de classe média, transmitiu e perpetuou diversas caricaturas e estereótipos negativos sobre a população negra.
    Consciente ou não, esse mecanismo de dominação atua fortemente , no âmbito da legitimidade simbólica, para garantir a permanência do racismo e da submissão de um grupo étnico a outro.
O público pode estar rindo e os teóricos da liberdade de expressão podem até dizer que isso é o maior exemplo de que a chaga foi superada. Spike Lee mostra que não: riso também pode ser sinônimo de nervosismo, medo, desespero e, por fim (por que não?), muito ódio.
    A forma como todo esse filme de tese é conduzido, contudo, é seu grande trunfo. Sim, ele parece carregado de uma certa raiva frenética, um certo impulso demolidor desesperado. Por controverso que o ponto seja, essa estratégia argumentativa é muito adequada à temática: não se fala de tabus que causam mal - estar senão com certa agressividade. Tabus já se insinuam com sutilezas e, por isso, são tabus. No mais, é dessa forma que o diretor diz muito ao espectador. O título do filme, no original, é Bamboozled, algo como enganado. Não só estavam enganados os personagens-centrais que constroem esse conto de fadas às avessas tão somente para “manter o público rindo", como também estava enganado o espectador quando, ao longo do filme, tentou tantas vezes entender e inocentar aqueles personagens. Afinal, como poderia querer Pierre Delacroix, ele mesmo negro, propagar o racismo?
   A cena final, contudo, desfaz o engano: reunindo imagens documentais de programas, desenhos e seriados americanos que mostram o retrato estereotipado dado aos negros, o diretor nos ensina que há algo além da intencionalidade: uma espécie de caldo cultural no qual já estamos imersos, no qual todos esses estereótipos já foram gestados pela história que nos precedeu. Não que o diretor roteirista tenha interesse em inocentar. Antes, quer esbofetear a hipocrisia para lembrar que todos somos culpados.
   E se a culpa é coletiva, não se deve permitir a crença em coincidências: tia Anastácia não foi retratada como cozinheira por acaso. Se assumirmos o acaso e a omissão nas expressões simbólicas, brincamos com os signos. E é exatamente isso que não devemos fazer: os signos são perigosos, tão perigosos que podem se revoltar e liberar todas as camadas ideológicas por trás de sua suposta literariedade completa. Pacificado em sua superfície e submetido ao teste do tempo, um signo pode sugerir que já deixou uma ou outra de suas representações para trás. Que tal
sentido não lhe pertence mais. Novamente, podemos estar enganados.
   Os brinquedos de teor preconceituoso que se acumulam na sala de Pierre Delacroix, os quais ele tenta desesperadamente destruir no final, talvez sejam o melhor exemplo desse dizer que se espalha em silêncio, que não se apaga, que não se quebra. Posto dessa forma, parece que o diretor não enxerga saída. Novamente, tal análise é injusta. O filme também é uma denúncia e quem denuncia acredita em soluções e não desistiu.
  Talvez Spike Lee gostasse de saber do julgamento sobre a obra de Monteiro Lobato que está ocorrendo no STF. Não se trata de vedar o contato com a representação, porque isso seria hipocrisia. Ela já foi gestada e diz da nossa história. Trata-se de garantir (sobretudo na infância, já que o público-alvo das obras de Lobato são as crianças) que esse contato seja feito de forma adequada, lembrando o significado secreto que pode estar incutido num símbolo aparentemente ingênuo.
   É impossível esquecer a lição que a mãe do protagonista lhe diz com a voz embargada, em conversa pelo telefone, já na segunda metade do filme: “Um macaquinho será sempre um macaquinho (...) Estou profundamente desapontada com você”. Em tempos de humor politicamente incorreto, em que rir do diferente parece expiar nossa culpa, o filme parece incomodamente urgente. Porque nunca foi tão verdade que uma palavra também pode ser um grilhão.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sober marcar a própria pele

   Ele a observou calmamente, óbvio que não era bela. De fato, também não era magra, nem possuía aquela feminilidade traiçoeira de esguias curvas e movimentos sinuosos demais. Tampouco era jovem. Morena, cabelos compridos. Reparou, contudo, suas feições melancólicas, seus olhos fundos e recheados de cansaço, a forma lenta e delicada como empacotava as compras: tudo nela era a imagem da solidão paciente. Paciente, mas não resignada. Estava maquiada, na segunda-feira à noite, para uma ida ao mercado. Na verdade, sua maquiagem era carregada, havia algo de teatral na forma como se pintara. Uma tatuagem que discretamente se deixava ver no espaço de pele nua das costas que, tal qual uma janela, a blusa parecia expor sem querer. Tudo aquilo, de alguma forma, o comoveu.
   Como lhe era de hábito, ficou fantasiando as histórias pregressas, o rico e minucioso universo pessoal da anônima desconhecida. Ele adorava essa atividade, sempre o fazia lembrar que a humanidade podia também ser apaixonante. Ela talvez já fora muito bela e desejada quando jovem, talvez muito amada, daí a sensação que ele tinha de que ela era a imagem de uma pessoa apagada. E isso era claramente diferente do que via nas pessoas que ainda procuravam brilhar, mas que nunca sentiam que seriam capazes. Essas costumam ser cruéis, ambiciosas, com sua energia louca, sua felicidade egoísta, seus tantos planos demais. As pessoas que já apagaram, do contrário, são mais frequentemente amarguradas ou apenas de uma tristeza discreta de tão singela.
   Sim, enquanto ela empacotava sua última compra, pensou que ela era singela. Quando ela se virou para colocar as sacolas no carrinho de supermercado, notou que a tatuagem em suas costas era de uma borboleta. Mas a borboleta dela já não era mais a tatuagem genérica por excelência, porque a pele oculta da desconhecida anônima passava a ganhar unicidade na mente dele. Porque agora a imagem se conformava aos delírios e reforçava outra condição: ela estava fixada e presa a um solitário universo pessoal imaginado. Ele esboçou mentalmente os muitos roteiros da história daquela tatuagem: quisera apenas provocar os pais? Ficara de porre com algumas amigas e tomou uma decisão no impulso? Queria ser vista com a pele marcada por algum cara que, no fundo sabia ela, gostava de marcas à vista para lembrar de marcas mais profundas?
   Por que as pessoas marcam a pele? Essa segunda indagação quase o fez perder a estranha de vista, mas ele pagou rápido seu último item e acompanhou o trajeto dela até o estacionamento. Há muitas razões, decerto, mas esse ato de auto violência sempre o seduziu. Estava claro que o fascinavam as mulheres tatuadas, as pessoas que, de alguma forma, no corpo, estampam a violência da alma. Nem tudo é violência na marca, isso também é fato. Mas se ele embasbacava tanto com essas ideias, por que nunca teve coragem de marcar a própria pele?
    Já pensara nisso antes, decerto, mas como aquelas hipóteses vagas e distantes da realidade. Pois a ideia de permanência o assustava. E também, no fundo, sabia que tinha suas próprias formas de marcar e sujar e limpar e gritar pelo corpo o sufoco de, dia após dia, ter de continuar fingindo que não sente falta da comunhão e da completude.
    Os pensamentos centraram-se de novo só nele e no fato de sentir-se seduzido (ou querer deixar-se seduzir?) por pessoas que lhe encarnam a imagem da solidão. Bem sabe que poderia gostar mais de si mesmo se acreditasse que amava as alteridades ocultas, mas, na verdade, no fim sabia que essas pessoas imaginadas faziam ele se sentir compreendido. E então a questão voltava a ele e ele se chocava ao perceber que ele nunca tinha virado um homem.
   Tinha certeza de que, mesmo que conquistasse toda autonomia do mundo e todos os seus predicativos de sucesso, mesmo que se relacionasse como quem não precisa, a solidão também estaria em seus olhos enquanto empacotasse suas compras no supermercado divagando sobre anônimas desconhecidas e igualmente solitárias. E ainda seria uma criança, como todos os homens a sua volta. Crianças manipuláveis, cheios de desejo de serem guiados enquanto interpretam o papel de quem guia, plenamente conscientes que se deixam enganar. E ficou pensando se alguma anônima solitária o observara. De fato, o ego tem seus caprichos, talvez excessivos demais.
  Antes que ela entrasse no carro, fingiu esbarrar nela. Pediu desculpas, mas ela sorriu compreensiva. Ele se ofereceu para ajudá-la a guardar as compras como recompensa. Perguntou coisa ou outra banal e suas respostas eram sempre delicadas, gentis e partidas: aquelas respostas que dizem pouco, dão a entender que há muito mais e conferem todo ar de incompletude e pressa a todas as conversas.
    Descobriu, contudo, que moravam no mesmo bairro. Ela lhe ofereceu uma carona, gesto raro nesse mundo de derretidas confianças. Ele aceitou de prontidão. Talvez ela fosse mesmo um pouco solitária, talvez ele estivesse tão apaixonado pela imagem que criara que conseguiria encaixar qualquer anônima desconhecida naquela moldura. Como saber? Já pensara muito sobre isso, as construções simbólicas que sustentaram todos os seus relacionamentos e os levaram a acabar. Mas todos os relacionamentos são assim, não? Quem poderia culpa-lo por isso? Ou será que, no caso dele, fosse pior? Que só ele sempre enxergasse o mesmo mundo, aquele já criado pela sua subjetividade em alguma instância inacessível?
    Ela tinha batom vermelho nos lábios, mordia eles devagar enquanto dirigia por novas ruas e ele apenas descansou os olhos naquela imagem pelos dez minutos do silencioso percurso. Antes de descer, conseguiu o telefone dela. Ficou de ligar para combinarem de se ver. Não saberia jamais responder às últimas indagações, as que a vida toda o inquietaram. Com exceção de uma: parecia-lhe estúpido agora pensar que qualquer uma poderia ter preenchido, para ele, o papel que criara para a bela estranha meia hora atrás no mercado. Por alguma razão ardilosa, tinha certeza de que apenas ela caberia nele. E então teve certeza que iria se apaixonar. E, pela enésima vez na vida, foi preenchido pelo sentimento que lhe faz entender por que as pessoas marcam a própria pele. 

domingo, 10 de novembro de 2013

Para os grandes amigos do passado

                 Como andam as coisas, grande velho amigo ou amiga do “passado de sempre”? Digo “passado de sempre” porque não acredito em amigos do passado. Como se o passado fosse sempre algo concluso e “para trás”. O passado levou ao presente, assim como amigos do passado fizeram-me como sou no presente. Sendo assim, é melhor deslocar os amigos no tempo e, para resolver todo esse problema, prefiro colocar os amigos numa esfera atemporal. Acima da pesada estrada mundana com relógios a toda esquina, a rotina controlada com a cirúrgica precisão dos diagnósticos fatalistas...
                 Estou escrevendo-lhe, porque sei claramente que estou em débito com você. Costumávamos nos ajudar tanto e, ultimamente, ando meio sumido. Mas obviamente não é nada com você: é só a correria da vida que nos deixa sem tempo para o que importa. E atordoado com nossas escolhas, confusos e hesitantes de seguir em frente. Mas sempre seguimos. Daí, quando respiramos, quando organizamos momentaneamente o quebra-cabeça da memória e encontramos as peças que realmente significam algo, é momento de encaixá-las. E se daqui a alguns anos todas se desencaixarem de novo, espero ter novamente esses momentos, para nunca perder de vista as peças raras.
                E não digo tudo isso apenas por não ter respondido (ou não ter respondido devidamente) a seus convites. Para legislar em causa própria, posso dizer que, pelo menos, acompanho seu trabalho à distância. Ou nas conversas rápidas que me fazem sentir que tudo é como antes. Mesmo não sendo.
                Da minha parte, garanto que ainda te vejo como antes: o indivíduo em processo da infância e da adolescência, com tanto medo da “sordidez do mundo adulto”. E depois também o adulto combativo e sonhador, que ainda se sente uma criança (não sonhadora, mas assustada). Rótulos e concessões, escolhas fora do plano: tudo isso faz parecer que algo se perdeu. Mas, se você organizar certinho as peças, verá o quão grandioso é o quebra-cabeça de sua vida. Não o jogue fora: remende-o, se necessário. Procure peças sobre a cama ou nos armários esquecidos do quarto da infância. Tente mudar algumas de lugar e verá que a imagem formada parece menos caótica. E entenderá que está tudo ali dentro, mesmo que, ao mesmo tempo, tudo está lá fora. Essa é a brincadeira da vida, desses sentidos que se constroem e reconstroem e nunca findam.
                Eu sei que não é fácil. Tantas vezes, queria saber organizar melhor, ter algum tipo de “porta quebra-cabeças” para facilitar o transporte de tantos pedaços. Queria me livrar da sensação de lacuna permanente, mas assumir que isso é possível é destruir minha própria metáfora. Se a vida é, para todo sempre, um quebra-cabeça incompleto, ela só existe entre lacunas. Às vezes, sonho com reencontros em mesas de bares com aquele grande amigo esquecido do passado. Ou com aquela paixão flutuante da adolescência, tão intocável em sua pureza não consumada. Sonho com achar peças em lugares que nunca estive. Ou em me cegar com o brilho daquelas que, desde sempre, foram opacas.
                E aí me sinto como o estúpido adolescente que viu filmes e leu livros demais. Covarde, preferi a realidade inventada às lacunas do real. Lunático, projetei a luta pela igualdade do sofá de minha sala de estar. Insensato, acreditei demais num fio de sentido que passasse linearmente sobre todos os fragmentos, unindo-os fortemente, enrijecendo o perigoso mosaico do viver e tapando todos os buracos. Novo paradoxo infeliz que destrói as porcas metáforas que mal construí: não há retas ou linhas que possam cobrir, sozinhas e simultaneamente, toda essa área disforme de existência pulsante. A não ser que unamos uma linha a outras e dobremos todas em tantas partes...
                E se faço esse texto sobre a incapacidade de ordenar a memória, tampouco é porque desisti da tarefa. Como poderia ter desistido se esse próprio gesto, o de escrever, é o constante esforço de conferir sentido, de resgatar farelos, de passar a linha na agulha e debater com força a ponta da agulha sobre duras peças que apenas a entortarão. Sim, escrever é o mais irracional dos gestos. E eu, adepto da poesia-pop, de bobagens lírico-sentimentais (seria, como sugeriu Chico Buarque, culpa da herança lusitana?), as quais opõem a racionalidade técnica ao exercício estético, só consigo achar que escrever também é o mais humano dos gestos. Só é humano para mim o que é irracional e, sendo assim, nada pode ser mais humano do que continuar vivendo e procurando sentido, mesmo com a plena consciência da impossibilidade de encontrá-lo.
                Não me demorarei mais, grande amigo do passado. Você também é, para mim, outro paradoxo: você é a “lacuna preenchida” da minha alma, aquele que dói demais quando não há relógios por perto. Mas não quero preocupa-lo ou desanimá-lo. Fique tranquilo, eu estou bem.
                Se tudo isso pareceu pessimista demais, é só uma questão de viés: vejo beleza na marcha atarantada que fazemos sabe-se-lá-para-onde. Vejo beleza em tantas peças pelo infinito caminho esburacado. Só me preocupo em não perder de vista o quarto da infância, os lugares insuspeitos e as pessoas incríveis que encontrei em cantos e vielas escondidas. Pois é bem verdade que, se não tomarmos cuidado, podemos elipsar todos esses referenciais. Até porque é tão flexível e mutável esse material de que são feitas as peças da memória. Ele é fabricado em algum canto escondido e inacessível onde se tocam nossa mente e nossa consciência. E não é confiável esse espaço onde ambas tem autonomia, assim como não é confiável qualquer gesto de percepção que aí se constrói.
                 Assim, as lembranças podem se confundir com lendas, as pegadas correm o risco de se apagarem tão logo tiramos o pé do chão e a própria história nunca escrita de nós talvez desista de gravar-se na eternidade de nós mesmos. Aí perdemos a vontade até de participar da marcha coletiva pela busca do sentido sempre fugidio. Esse é meu maior temor e, por temer, escrevo para você. Alerto com urgência, passo um fio errante e emaranhado sobre espaços do passado, na esperança de que a insensatez desse gesto mantenha-nos apaixonados por essa magnífica aventura de errantes.

               

                

domingo, 11 de agosto de 2013

Sobre amantes e tango

Para Carol S.

Por que pensar sobre amantes e tango? Todos intuem a batida comparação, mas olhar atento para as semelhanças entre o tango e os amantes ensina sobre existência e memória. Dos amantes e do tango, sabe-se da fúria. A fúria esguia que apossa os corpos e derrete o espaço, engolido na coreografia frenética do desespero. Dos amantes e do tango, vê-se que passam apressados pelo palco, como também não olham espectadores. Donos do mundo ao redor, pisam com força em solo desconhecido, agitam-se freneticamente nesse local de tudo e nada que se chama“nós”.
Pois no tango, a dança é sempre a dança da última vez e, portanto, o domínio do espaço e dos corpos é tão pleno quanto irresponsável, pois espaço e corpos se entregam sem pensar para a ciranda apaixonante e demolidora. Também assim são os amantes, desde que o mundo decidiu nomear assim todas as pessoas que passam apressadas e inteiras, tão ávidas quanto entediadas.
Os amantes zombam de tudo porque vivem na dança da ultima vez, com um diferencial: a crença na dança de tempo infinito. Se sentem que durará para sempre essa entrega irresponsável, se apostam a alma na leveza dos corpos, nos pesos que se dividem, então podem viver um pouco a sensação de que tem um mundo só deles. O mundo dos outros está ali, apesar do mundo deles. Eles já leram muito sobre isso, sabem que repetem o padrão de todos os amantes, podem odiar sentimentalismo, mas não adianta: todos os amantes dançarão tango mais cedo ou mais tarde, viverão como se sob a crença de que algumas ingenuidades podem ser infinitas, de “quem sabe ao menos nossa inocência não será castigada e nossa felicidade sairá impune?”
Mas nenhuma dança tem tempo infinito, embora toda dança tenha dois, três ou múltiplos tempos. Há o tempo dos dançarinos, o tempo da música, o tempo íntimo de cada um, o tempo do espaço que abriga o movimento, o tempo da memória que escolhe os flashes únicos que merecem ser guardados. Talvez alguns desses tempos sejam infinitos, mas, de forma estrita, uma hora a cortina se fecha e o espetáculo tem fim. Isso não necessariamente significa o fim dos amantes. Há muitas saídas, algumas boas, algumas ruins, outras péssimas.
                Espera-se dos amantes que não se tornem dançarinos de tango para turistas, aqueles que emulam um passado sem legitimidade, usam uma tradição espontânea de forma artificial e assim desconstroem a memória, criam lembranças outras, fabricam histórias que nunca foram. Não se deve culpá-los, porque geralmente precisam ficar presos num passado fantasma para encontrar sentido no presente. Contudo, são infelizes.
A melhor saída de palco, o melhor fim de dança para os amantes que dançam tango é aquele no qual eles olham para o público e agradecem. Assim, descobrem que o mundo dos outros existe, apesar do seu. Daí, podem conseguir até um bom lugar na platéia para assistirem a próxima dança. De repente, se o amor for grande o suficiente, se derem alguma sorte e se tiverem realmente boa vontade, conseguem se sentar lado a lado. Dão lugar para a dança de outros amantes, guardam todo o espaço que desconstruíram e roubaram durante a própria dança dentro da memória. Lado a lado, podem voltar para a casa, para talvez um longo tempo que os espera juntos, para talvez esse mundo prismático de todos, de cada um deles, dos outros, de nós e de vocês. Pois os amantes da vida toda, aqueles que sobreviverão ao teste dos anos que passam, do lamento nostálgico da vida vivida, são aqueles capazes de dançar tango sozinhos no seu quarto escuro depois de um dia sujo de rotina gasta.


sábado, 20 de abril de 2013

Sobre a temperatura humana


               Você já pensou sobre corpos que se abraçam na madrugada improvável? Andei pensando muito sobre madrugadas improváveis, caro amigo, bem como sobre a alta probabilidade dessas horas escuras, impassíveis e quentes. Quentes na temperatura humana. Digo temperatura, pois não gosto da ideia de calor humano. O calor sequer é uma propriedade dos corpos, tem essência transitória. Na temperatura própria do humano (e isso nem é de medida objetiva, gosto de pensar que somos de temperatura irmã dos febris e hipotérmicos também), dois corpos não trocam calor, apenas colocam suas temperaturas lado-a-lado, dividem aquilo que é propriedade mais intrínseca do atual estado de seus descaminhos.                                     
         Essa ideia, sei bem o que pensas amigo, pode soar mais solitária. A mim, também soa mais permanente, revestida pelo silêncio de eternidades que só o tem as madrugadas: ainda só, aproximamos infinitesimalmente nossa temperatura da do corpo semelhante e, com essa aproximação, não destruímos a integridade dele (nem a integridade da dor, nem a da solidão, nem a da beleza), mas chegamos o mais perto possível de entender o alheio sem invadi-lo, como se fosse o genuíno ato de solidariedade. Aproximamos tanto que ficamos a um sopro de tocar o espaço de vertigem ao lado, mas nunca o fazemos. Ainda bem, mal damos conta da nossa vertigem. Bem sabemos como essa distância irrisória dói, mas é essencial.
              
           Vemos o abismo de solidão que nos cerca, mas acenamos para o semelhante do outro lado dele. Talvez combinemos um horário na mesma madrugada para vermos a mesma lua e lembrarmos que sentimos o mesmo abandono e aconchego quando olhamos o céu vazio e nos damos conta de que nem a temperatura de todos os humanos somados aumentaria sequer um grau centigrado do frio galáctico do universo infinito. Sobre isso, velho amigo, andei pensando que no espaço humano, quase inexistente, que se coloca entre as temperaturas de dois corpos lado-a-lado, algum atrito talvez acenda uma fogueira. E fogueiras, em noites serenas de almas silenciosas, têm o poder de trazer paz. Essa bela imagem, quase soprada aos meus ouvidos numa madrugada improvável, deu-me um esboço da beleza da nossa condição: quase ouvi a madrugada, peguei um sussurro espaçado ao redor. Lembrei que, muitas vezes, é fácil ser feliz ao lado do abismo: basta parar de olhar para baixo e olhar para frente.