Alguma utilidade?

Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Só lacunas

Posso esquecer muita coisa, não esquecerei sua voz baixa me chamando de volta, não fique tão longe, estamos aqui, o mundo está aqui e a Terra grita e agoniza toda hora, volte logo, não há nada lá fora, estou indo te buscar. E eu sempre só quis ser buscado, a mais simplista das pessoas vaidosas. Era a criança que se escondia e cronometrava o tempo que levava para darem falta dela. Sim, eu sei que isso é uma falha de personalidade, provavelmente um defeito de caráter. Mas quem não ama ser buscado?
Sinto sua falta. Percebi isso primeiro quando me peguei recitando um velho texto, apostila da sexta série ou algo assim. Não recordo claramente o conteúdo, a clareza vamos deixando com a idade que corre. Sei que era sobre um homem e a ausência da amada, contabilizada em pedaços de rotina espalhados pela casa.
Eu realmente queria ser menos adolescente. Queria ser muito original. Mas agora só posso ser verdadeiro. E ser verdadeiro é resvalar em um monte de clichês. No fim, é apenas o que somos. Vamos aos clichês: é fato que gostava mais de mim quando estava contigo. E também é fato que não habito mais nossos espaços de rotina, mas sei de cada pedaço de nós que se espalhou pelo caminho e se entranhou em mim. Posso voltar para a alma, para o desejo de rasgar a própria pele, para meu ego imenso e hipersensível.
Prefiro parar em nós dois, repousar no silêncio sereno do lugar para onde sempre podia fugir. Para as tardes longas e arrastadas, para os segundos cheios de escárnio e ingenuidade, para a certeza estúpida de permanência. Para seu cabelo enroscando nas minhas mãos desajeitadas, para a coragem de ser brega, para a confiança da qual se nutrem os atos ridículos e os gestos descontínuos. Quando me sentia velho demais para ser tão jovem, era só sua piada capaz de desmontar minhas certezas. E não sentia tanta saudade assim de me conectar com o mundo. Não havia espaços infinitesimais e intransponíveis, o desconforto absurdo de habitar meus gestos inquietos.
          Costumava dizer que vaguei demais até primeiro caber em algum lugar. E isso me lembrava outro autor, dessa vez Drummond, “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, mas eu nem me dava conta das mãos, descordenadas como as de uma marionete que jamais percebeu ter um mestre. Lembrava de palavras esparsas da adolescência vertiginosa. Alguns solavancos, gargalhadas, paranóia e solidão. Seja homem, isso é pequeno demais para te quebrar. Seja homem e engula as lágrimas, seja homem e não deixe te rebaixarem. Enfrente e não procure colo. Não, não caia fundo nos cabelos dela, no corpo dela, não dependa tanto desse afeto, não procure tanto consolo. Não mergulhe nas certezas macias, no calor letárgico.
Mas e se já fui muito fundo, como todos os clichês? E se nunca aprendi a ser homem? E se agora devo voltar para uma casa que nunca habitei, para o estranhamento dos gestos desconexos de um corpo que, sendo meu, nunca pareceu me obedecer? E se nunca aprendi a engolir o choro? Porra, como sinto sua falta.            


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sobre excessos


                Acho que só escrevo sobre solidão. Talvez por isso, notei que não gosto de escrever senão para alguém. Sempre escolho, pois, destinatários imaginários. Essa é para você, que está debruçada próxima a janela, também ouvindo a chuva cair. Você sabe que é um clichê lamentável e raso. Você é vítima de toda pretensão da boa literatura ocidental, da excitante articulação política e da fé febril nos projetos de civilização. Você queria se despir de todo esse mosaico de excessos, mas tem medo de não achar nada. Então você volta a procurar a salvação na Igreja na qual sua fé de superfície foi lavrada: folheia alguns livros diferentes, saboreia a fantasia estética do humano complexo (tantas camadas quanto um caleidoscópio quebrado!) e se deleita com a incompletude que benze cada fiel renovado. Em seguida, fica perto da janela enquanto a chuva cai e tem vontade de escrever. Sim, escrever, porque você também é escrava demais de sua fé e, no fim, nada é tão complexo assim e a chuva traz em você a melancolia genérica que traz há tantos personagens e dias que habitam os quilogramas demais de arte e cultura pop que você consome.
                Mas, que merda, você é tão cínica quanto eu e sabe de tudo isso. Ainda assim, não consegue se livrar de sua melancolia genérica. Ela parece tão funda, tão bem gestada em sua solidão confortável, tão ingrata para não ser única! É o isolamento, você está certa. Eu vejo bem o que você me diz: você também é dúbia e não gosta tanto assim de você, mas no fundo ainda alimenta a crença secreta de que é uma boa pessoa. Ou de que será capaz de ser um dia.
                Com a chuva caindo, sua mente se enche de imagens. Sua mente não se importa que seu mundo seja seu quarto e seus livros: ela te trai com imagens de paisagens, pessoas, países e vidas do mundo todo. Vidas que você não conhece. Vidas das quais você não daria conta. A solidão daqueles que realmente tem razões para chorarem durante a chuva.
A resignação e a força das mães solteiras que trabalham em dois turnos e ainda pensam nos filhos vinte e quatro horas lhe enternece especialmente. O completo abandono dos presidiários lhe intriga. Quem chora por eles? Quem liga? Os que dormem na rua: você cruza com eles todos os dias e sabe que não faz nada. De qualquer forma, você os vê na chuva lá fora e não consegue sequer imaginar uma história de vida para eles. Como chegaram até ali? Algum dia você será capaz de fazer algo por eles? Do que servirão todos esses excessos?
Você pensa na solidão resignada desses personagens, resignada na falta de palavras e meios para dizer, na falta de voz para gritar, na falta de ouvintes para ouvir, na falta de uma educação burguesa que pudesse lhes incutir a sensação de que eles têm o direito e a necessidade de dizer: isso mesmo a toca profundamente.
            Eu queria te conhecer. Não que você exista, mas a sensação de que você também poderia estar escrevendo para mim, às vezes, me acalma. Eu não estou na rua. Minha família me ama. Eu levanto todos os dias e saio por aí: ocupo meu tempo, tento ser útil quando dá. Tenho amigos maravilhosos. Só que há um buraco grande quando a chuva cai. Sim, um buraco, já que já mandei à merda os clichês. Você não liga para eles, correto? Isso não é bem um concurso literário e bem... Você já leu até aqui um texto sobre chuva e melancolia, pode lidar com mais esse lugar-comum. E com os próximos também, porque tenho de dizer que esse buraco fica no meio do estômago e realmente acelera meus batimentos e eu não aguento mais agonia que ele gera.
                E se eu te abraçasse em frente à janela chuvosa, como nos filmes? Sinto que nada mudaria. Só outro excesso estético. Contudo, eu gosto de pessoas que fazem piadas consigo mesmo e sei que você é muito boa nisso. Preciso acreditar que daria certo nós passarmos uma tarde juntos. Você fecharia a cortina, eu esqueceria a chuva e todo esse mundo lá fora que eu nunca vejo. Também esqueceria os livros, os filmes, a televisão, a internet: os dispositivos que prometem me contar sobre a realidade, mas que mentem demais para mim. Eles me sufocam de uma empatia paralisante que não serve para nada e que acaba virando auto piedade. Nós dois não gostamos de quem somos quando sentimos auto piedade, certo?
                De qualquer forma, eu sei que eu olharia para você. Talvez eu até olvidasse que tudo isso é outro clichê, uma versão reciclada do mais barato e raso escapismo adolescente vendido em cada comédia da sessão da tarde. Você faria uma piada sobre o fato, como os roteiros dessas comédias também aprenderam a fazer. Nessa hora, eu olharia de novo para você.

Então gargalharia doentiamente e esqueceria o meu buraco no estômago, porque ele viraria apenas dor: dor biológica, a contração de algum músculo após o riso intenso. Nós até poderíamos chorar copiosamente alguma hora mais tarde e haveria carne e ossos em nossos abraços. Você teria fome e cozinharíamos juntos. Com certeza, comeríamos sem afetação, lambuzando os dedos e devorando com desespero a comida. Seríamos animalidade e corpo imperfeito, presença concreta e pesada a libertar de vez cada pretensão estéril. Despidos, encontraríamos o sexo e treparíamos até sua pele cansar-se da minha. Dormiríamos profundamente enlaçados e todas as camadas anteriormente descartadas voltariam a reconstituir-se. Só que estariam menos superficiais, curadas dos excessos de abstrações distantes: quase compactas em suas incompletudes. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sobre agressividade

             Tudo veio à tona de novo quando as ruas se encheram de fúria. Não era ele um indignado, por que aquilo o assustava tanto? Naquela noite sonhou, mas não foi um sonho apenas, foi uma lembrança editada pelo delírio onírico. Ele numa festa de ano novo, o único de preto, incapaz de se comunicar, preso demais em si, revoltado por ter certeza de que ninguém ali era feliz. Mais revoltado ainda por saber que era espantosamente autoritário e arrogante que tivesse esse tipo de certeza infundada.  Queria livrar-se dela, esmagá-la, triturá-la. Então dizia para si que tinha que mudar e aceitar que as pessoas eram muito felizes, o problema era ele, um dia trataria de se encontrar. Antes, precisava transformar aquele ressentimento e depois a certeza raivosa morreria naturalmente. Seria uma pessoa muito melhor!
            Mas acordou anos depois com a certeza ainda lá, oscilando entre os extremos eu e mundo: “onde há espaços em que eu possa caber?” ou “como pode o mundo estar caminhando para o fim melancólico e merecido da desgraçada espécie humana e todos continuarem seguindo hipnotizados, como em rebanho?”. Ele condenava-se pelos dois pensamentos, ambos extremos de uma mesma misantropia a ser combatida. Contudo, havia a moral cristã que tinha aprendido bem: ela ensinava que a única agressividade deveria virar energia transformadora e ele seria uma pessoa muito melhor!
               No mais, sempre falara demais, palavras sem fim, sílabas a dar para um pau. Odiava  demais sua voz, mas gostava de sua fluência com a língua, embora muitas vezes saísse de círculos sociais com a impressão de ser o mais desagradável no universo. Nessas horas, pensava em esfarelar e ralar sua face no chão, tamanha era a raiva que sentia de si mesmo. Quando ouvia críticas, pedia desculpas, embora no fundo começasse a nutrir certa raiva pelos seus interlocutores também. É porque ele nem sempre concordava com as críticas, mas nunca as retrucava. De vez em quando, tinha delírios em que respondia de forma contundente às represálias esnobes dos outros, sobretudo àquelas superficiais e muito intolerantes. Nada disso transparecia em suas desculpas suplicantes e famintas, é claro!
                Às vezes, tinha medo de nunca ser capaz de virar uma pessoa melhor. Tinha tanto ódio e ressentimento quanto aqueles que ele tanto odiava. E tudo que ele queria era ser diferente disso. Cansava-se demais nessa luta incessante, na busca pelo avesso do outro lado do espelho. Enfim, vieram os sonhos e as lembranças com as ruas cheias de fúria, ruas nas quais ele não conseguia pisar.
                Nessa fase, tornou-se mais agressivo do que nunca em seus diálogos internos, em suas respostas atravessadas a todo tipo de afirmação que julgava descabida. Aquelas pessoas diziam defender a todos, mas ele sentia que, na verdade, algumas daquelas pessoas queriam apenas uma coisa: o extermínio dele e de todas as pessoas como ele, queriam roubar todas as razões que, nesse país, permitiam que as pessoas sorrissem às vezes. Eram como os adolescentes inseguros do Ensino Médio que, tantas vezes, esfolaram de fato a cabeça dele no chão para encontrar um sentido que nunca tiveram.
                Tudo piorou ainda mais quando começou a tentar, educada e polidamente, posicionar-se com toda sua racionalidade auto-contida. Ninguém queria isso. As pessoas queriam mesmo o esfolamento no asfalto e ele foi descobrindo mais e mais agressividade e sentimentos represados e acordar todo dia naquele ambiente parecia exigir um oxigênio que estava em falta na atmosfera nacional.
                Ele sempre fora muito competitivo, mas odiava agredir, brigar e violentar. Isso não lhe trazia prazer, o sofrimento do outro. Gostava de vencer, mas preferia que fosse vitória silenciosa: a dor do derrotado quase apagada, guardada numa escuridão respeitosa. Gostava de vencer sem que houvesse perdedores. Assim como gostava de não ser machucado, mas odiava se defender. Assim como odiava fechar as coisas em caixas de sentidos e catalogar a vida, mas era incapaz de viver sustentado apenas por conceitos soltos e vagos, mutáveis, mutantes e abertos. Assim como amava a linguagem e tudo que vinha com ela, todo o poder de imprecisão de suas desculpas que lhe redimiam sem lhe trair, de suas posições que não lhe manchavam e nem lhe entregavam, do seu gentil sexo unilateral, toda sua fluidez ambígua definidora, mas odiava as muitas fissuras que ela exibia em seu tecido semântico resplandecente.

                E dessas contradições fundamentais, dessa ruptura entre dentro e fora, fechado e aberto, casa e rua, silêncio e multidão, multidão e comunhão, multidão e caos, multidão e ressentimento, multidão e ele, um grupo e ele, segurança e ruptura, desse emaranhado de abismos sem fim, vinha sua agressividade, seu espanto mais perplexo e sua eterna claustrofobia, mas também seu amor mais desvairado pela vida. Talvez só precisasse parar de tentar fechar os abismos. Talvez bastassem tocos que servissem de pontes, mesmo que provisórias, para que seu indivíduo emergisse mais inteiro, menos fragmentado, próximo de sua plenitude. Todavia, sentia-se mais longe do que nunca da habilidade de construir pontes.

sábado, 8 de novembro de 2014

Ela, ele, ambos: uma separação em três atos


Ela – Tatuagem
            Já estava esperando há uma semana o momento de chorar em frente ao terapeuta e atropelar as lágrimas enquanto se desintoxicava dele com o falatório frenético:
            - O problema é que ele nunca entendeu a minha solidão. Havia manhãs e manhãs, mas havia também aquelas noites claras em que eu me sentia tão completamente só e só queria que ele me levasse para seu sonho, que sempre parecia harmonia. Quando o apertava forte junto ao meu corpo e o abraçava para nunca mais sair, era para que entendesse que eu queria rasgá-lo, arranhá-lo, marcá-lo e depois sentir vergonha: era minha forma de ter certeza de que estava fora de controle quando cravei fundo em sua pele. Porque aí poderia me enganar e dizer que ele me teve o tempo suficiente para eu apagar de minha fragilidade. Mas o que nos demoliu foi que ele nunca entendia. Ele não entendia nada que não fosse puramente literal e ninguém ia dar conta de pedir as coisas que eu queria pedir: todas as pequenas banalidades que chamávamos de nós, queria ter alguma garantia de que não era só eu que precisava demais daquilo. Mas não era pura mesquinhez, era uma necessidade de me afogar em sua pele, um desespero de chorar menos nas noites claras, uma vontade de me sentir menos sozinha, de ser ilhada por ele, sem nenhuma saída que não nós em todas as direções. E tudo isso começou a assustá-lo, essa minha desesperada agonia vibrante e sei que foi aí que comecei a acabar conosco. E pensar que ele que se foi achando que eu não queria mais. Óbvio que não era isso, ele e seu medo risível das metáforas. Eu só não queria dizer que precisava muito. E na noite em que ele se foi, sonhei que dançava para uma plateia vazia e que isso me entristecia. Ele me assistia dos bastidores e sabia que eu estava melancólica com a plateia vazia, mas mesmo assim continuava nos bastidores. Eu percebia que ele me assistia nos bastidores e que não iria para a plateia, e isso me enchia de mágoa e abandono. Tomada por uma súbita alucinação, eu rodopiava sob luzes tênues que depois começavam a piscar e o rosto dele apenas aparecia como instantâneos fotográficos na escuridão, cada vez mais fugidio, como a zombar de mim, revelando sua natureza etérea e frágil. E eu entendia que era por isso que eu quis tanto tocá-lo e marcar fundo: era esperança de tornar concreto e tangível o rosto de luzes e sonhos que me assistia dos bastidores. E eu girava cada vez mais rápido, pois queria ser tomada completamente pela vertigem ensandecida e apagar. Queria a escuridão. Queria me certificar de que nem todas as marcas na pele, na alma, na rotina, nos lençóis, nos silêncios, nas discussões cheias de fúria e prolixidade, nos olhares transbordando de lamento, nenhuma marca tinha sido suficientemente forte para impedir que ele evaporasse nos bastidores de uma dança sem plateia com luzes que me deixavam tonta. A última coisa de que me recordo antes de desacordar no sonho e acordar para a realidade era da música que tocava ao fundo, soprada dos bastidores agora vazios: “Tatuagem”, de Chico Buarque.
Ele – Trocando em miúdos
            Ele entrou já trôpego no segundo bar e pediu uma dose de cachaça à garçonete mal-humorada. Só queria se embriagar, apoderado sabe-se lá do quê, com a certeza de pertencer ao irresistível clichê dos amantes bêbados e abandonados. E queria se embriagar nas entranhas da madrugada num bar caindo aos pedaços, mal iluminado e vazio, para reforçar seu sentimento de completo abandono e desvelo. Queria reprisar todos os acontecimentos dos últimos meses, queria responder a ela todas as acusações absurdas que fizera. Bem, ele também fizera acusações absurdas e dissera coisas que não se diz, palavras que não se interceptam no ar, que acertam velozes e depois ficam congeladas para garantir que não haverá nunca mais o retorno ao instante imediatamente anterior à eclosão delas. Era por isso que, na maioria das vezes, ele gostava de responder só a uma versão imaginária dela, que existia apenas na cabeça dele e a quem dizia quase tudo que nunca conseguia dizer pessoalmente.
            Perdido nesse exercício de flexão do ego e auto piedade, posou os olhos num karaokê largado no fundo do bar. Nunca cantara em público e sempre odiara expor-se, mas daí lembrou que não havia ninguém ali além dele. Naquele instante, adorou o fato de que, em japonês, karaokê significava orquestra vazia. Adorou porque sentiu aquilo como metáfora de sua situação. E ele adorava metáforas. Pois bem, ele iria cantar com a orquestra vazia para uma plateia de uma pessoa só: ela, sentada na primeira fileira, que ouviria tudo que ele tem a dizer.
            Dirigiu-se ao fundo do bar, pegou o microfone na mão e escolheu qualquer música. Isso era irrelevante. Ele estaria cantando sempre a mesma música: Trocando em miúdos, de Chico Buarque. Ele, como o eu-lírico da música, estaria revendo o saldo de um relacionamento, passando com um trator por cima das pontas soltas, na fúria de transformar tudo em pó o mais rapidamente possível. E enquanto cantava seu drama pessoal olhando diretamente para ela, sentia que se libertava. No meio de sua serenata às avessas, arrancou a aliança do dedo e jogou no chão: assim, nesse teatro de si mesmo, interpretando o personagem que é pura mágoa e ressentimento, tinha certeza de que seguiria em frente.
            Só que ele, ao contrário do eu-lírico da canção, desandou a chorar desesperadamente no meio do show e ela nem se moveu na plateia imaginária que ele criara. Ela permaneceu impassível enquanto ele engolia, sozinho, as lágrimas quentes que emergiam compulsivamente. E então ele começa a sentir-se tonto e nauseado de dor por se alimentar das próprias lágrimas. E cai desacordado no chão frio de um bar abandonado no meio de lugar nenhum.
Ambos – Futuros Amantes
            A garçonete estava cansada daquela cena. Já a assistira inúmeras vezes: homens bêbados abandonados pelas mulheres, que achavam que seus dramas eram os maiores da Terra. Ela jamais tivera ninguém, então era razoável que julgasse o amor uma coisa de tolos. Ela era mais astuta que isso, ela entendia os mecanismos que norteavam o comportamento dos amantes: não passava de sujeição a um modelo cultural de amor romântico criado muito antes de qualquer um de nós nascermos. Ela nunca fora à escola e não desenvolvia essa ideia com tanta prepotência e academicismo, mas sua inteligência rara não deixava escapar o fato de que o tipo “bêbado-amante-abandonado”, tentando conversar com ela sobre dores do abandono, havia crescido muito em frequência ali desde que Reginaldo Rossi fizera muito sucesso com a música “Garçom”.
            Da parte dela, havia uma irritação tremenda com esse egoísmo exacerbado dos amantes, que sempre julgavam sua dor a maior de todas. Ela era assim, amargurada e segura: fizera-se sozinha, não precisava e nem queria precisar de ninguém. Não era tola, porque já fora uma jovem bela e se divertira um pouco com alguns homens. Muito menos do que poderia, é fato, mas é que ela se entediava fácil com tudo aquilo.
            Naquela noite em específico, estava incomodada com aquele rapaz que entrara ali na alta madrugada e não parava de virar doses de cachaça. Ela mesma já teria fechado se o estabelecimento fosse dela, mas ela nunca tivera nada e aprendera a “fazer o que tem que ser feito para continuar viva”, como gostava de dizer. De qualquer forma, achou peculiar (não original, que fique claro!) e até divertida a forma como aquele rapaz gesticulava os lábios e parecia achar que cantava quando pegou o microfone do karaokê. E bem, eram quatro da manhã naquela espelunca que subtraíra metade da sua juventude: fato raro que ela achasse algo divertido!
            É claro que logo o rapaz desmaiou de bêbado e ela teve de chamar uma ambulância e voltar ao seu mau humor costumeiro.  Agora, pelo menos, poderia partir, ela pensou. Enquanto limpava o chão, percebeu que o jovem deixara um anel próximo ao local em que cantava. Ela colocou em sua bolsa, determinada a ver se conseguia vendê-lo no dia seguinte.
            Ao chegar em casa, já amanhecia. Antes de se deitar, pegou-se olhando em frente ao espelho e testando o anel em sua mão. Por um instante fugaz, permitiu-se enganar por tudo aquilo que chamava de “essa bobagem toda”:            fantasiou a história do casal para o qual aquele anel já significara muito. Pensou sobre as noites frias em que eles se sentiram sozinhos e fizeram companhia um ao outro. E também começou a devanear sobre como seria legal ter alguém como companhia quando ela se sentia fraca demais. Mas daí lembrou-se de censurar-se de novo por perder-se naquelas fantasias que, muito antes aprendera, era um luxo ao qual não podia se permitir.
            Sim, ela entendia todos os esses sonhos como luxo.  Sobretudo por ter, desde cedo, consciência de que os homens à sua volta queriam que ela acreditasse ser frágil apenas por ser mulher. Ela sabia quão estúpida era essa ideia, principalmente ela que, graças a Reginaldo Rossi, entendia como ninguém que os homens também tinham delírios românticos, a maior parte deles mais ingênuos e egocêntricos que o das mulheres. De qualquer forma, ela não daria margem alguma para que alguém voltasse a vê-la como frágil. Ela “faria o que fosse necessário para sobreviver”.

            Jogou o anel numa gaveta e prometeu-se penhorá-lo no dia seguinte. Deitou-se em sua cama estável e sonhou que se apaixonava até às raias da loucura por alguém que se apaixonava por ela também e, pela primeira vez, dividia a cama para dormir, entregando-se à instável presença do outro nesse momento de plena vulnerabilidade. Aquele anel nunca saiu daquela gaveta.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Fadiga

Perguntaram-me sobre minha fadiga, mas não soube defini-la. Tentei fadiga na alma, algo como articulações de esperança gasta e a osteoporose do cinismo melancólico tomando conta de tudo. Mas isso se parece com a descrição de um idoso de vida difícil, algo distante demais da minha realidade. Contudo, tenho fadiga. Fadiga até de pensar sobre a fadiga, uma vontade de voltar sempre aos espaços mesmos, de readquirir o direito de se enrolar em cobertores de tédio e segurança. Quando regresso, contudo, fecho os olhos e, mais uma vez, me acabo.
                Encontro paz só quando visualizo você, em qualquer lugar sereno, algum barulho da experiente harmonia ao fundo, nós dois tentando entender porque tantas vezes desencontramos caminhos, porque insistimos em torcer e contorcer os espaços que unem e separam. E ali, nesse delírio onírico de quem nunca se lembra da última vez em que sonhou dormindo, parecemos idosos de verdade, cansados, mas sábios. Fatigados, mas tranquilos.
                Até lá tem muita vida, e isso me assusta. Até porque você sou eu mesmo (ou eu mesma, ainda me pergunto quantos femininos cabem no irredutível e estéril masculino) tentando exercitar as articulações da esperança e recuperar a alma. A tarefa anda parecendo tão difícil, odeio decisões e sinto-me mais medroso. Tão medroso quanto infantil, receoso de um futuro que não existe, saudoso de um passado que não tive. O presente, só fadiga e promessa. Menos promessa, promessa é futuro e futuro é oco como os ossos esburacados da alma.
                No mais, sinto-me fraco, insuportavelmente fraco para quem já devia ser homem, para quem deveria agora exibir o auge do vigor e todas as promessas no olhar. Não o menino completo, aquele que não quer sair de si mesmo, que é brutal sem conseguir assumir a brutalidade, que entende da natureza da violência da vida e prefere ignorá-la. Ignorar pela esperança de haver outras saídas. Ou pelo prazer de lutar por causas perdidas que mais dizem de si do que do mundo.
                Pouco ajuda a sensação de que vivo, conforme diria a icônica música dos Engenheiros do Hawaii, num “país sedento num momento de embriaguez”. Num momento em que parece que todas as opções são uma só: escolher com ódio e cinismo. Como entregar o futuro ao cinismo? E, pela primeira vez, não tenho mais certeza se existe uma opção que contorne tudo, que abra espaços flexíveis nas distorções que produzimos entre nós, eu e eu mesmo, eu e você, eu e um país, um indivíduo e os outros, uma sociedade e eu, um emaranhado de espaços e chances que vão ficando menores, um leque de escolhas que parece tão reduzido. E, ainda assim, novamente canso-me com a perspectiva de ter de escolher, de procurar bifurcações, de abrir estradas no leito seco da vida.

                Abalo-me com tudo e tão à toa que também aprendi a odiar intensamente meu “ar blasé” e minha melancolia. Odeio o sem sentido de se procurar sentido, quero esse lugar leve, quero as duas metades de mim, quero o silêncio contemporizador ao menos uma vez, para curar-me dessa idade suja, desse tempo rancoroso, desse local em que pertencer é ódio e cinismo, dessa fadiga de andar em círculos desesperado e começar a perceber que o combustível uma hora acaba, talvez antes que eu seja capaz de encontrar um pit-stop. Um peão que não para de rodar é só vertigem jogada fora, uma contribuição danosa à entropia metafísica de existir: fadiga. Não de corpo. De alma. Talvez do excesso de nada.

domingo, 27 de julho de 2014

Sobre a chuva

“Itabira é apenas uma fotografia na parede/
Mas como dói!”
(Carlos Drummond de Andrade – Confidência do Itabirano)

             Sempre quis escrever sobre a chuva escoando no concreto de ruas vazias e construções simétricas. Não sabia bem o quê naquilo atingia meu âmago. Os anos ensinaram-me que, na verdade, eu queria escrever a respeito de voltar para a casa. A chuva era só o elemento onipresente dos mesmos trajetos da vida toda, que cheiravam como essas ruas vazias lavadas pela chuva.
             Por que é tão difícil andar sobre as mesmas ruas da adolescência? A falta de originalidade do tema é evidente e tantos falaram melhor sobre isso, mas como lidar com esse desconcerto que turva todas as percepções? É possível seguir em frente sabendo-se andando em círculos, indo tão longe para voltar, sempre preso na geometria estéril e reta dos quarteirões silenciosos da juventude?
            Os amigos de outrora parecem amigos de sempre e o cenário de outrora parece estar esculpido nos meus olhos de hoje: tudo ainda esquenta e traz certo sentido de integridade, de agregação súbita de pontos dispersos, reforçando a crença na sabedoria e no sentido do acaso. Isso reconforta, pois repetir o mesmo tema e resgatar velhos personagens é perceber como ainda desempenho bem meu papel originário. Contudo, não impede a rápida eclosão de um segundo incômodo, disfarçado de humor nervoso: a necessidade de expressar o quão aliviado estou por ainda caber naquele personagem, que só é capaz de existir naquele palco de suposta inocência em que foi gestado.
          E isso é como confrontar o desesperado lirismo adolescente, os sonhos não tão antigos, com os rumos da realidade: parece que algo tremendo se perdeu. A energia louca e frenética de descobrir o mundo a cada esquina foi ficando mais cínica e só encontra sua verdadeira voz quando meus passos deslizam pelas pegadas do adolescente que respirava impúbere e impune. Mas o adolescente andava a pé, encharcava-se embriagado na chuva, sentindo-se tão dono de si e de todas as sensações amplas da dilatada, imensa, caleidoscópica vida que o esperava. Hoje, no carro, vidros fechados, tão poucas confianças, apenas a certeza da não-inocência e uma insuspeita tristeza permanente.
          É como se estivesse ainda no mesmo lugar, mas ele tivesse se tornado mais limpo, esterilizado, opaco, profissional, como filme remasterizado que perde o charme e a energia impetuosa que enche de tesão a vida. No fundo, todo cenário pronto põe em cheque aquele que fabricou meus olhos e realça as inúmeras discrepâncias gestadas pela distância do referencial. Duvido demais da minha percepção, mas não sei bem como testá-la, a água se acumula no pára-brisa do porvir e subtrai toda a visibilidade.
  A memória domina, cheia de lembranças não vividas e saudades. O ritmo da chuva é um ácido golpe para meu eu burocrático de hoje, engessado em meio a tantas vielas, sem saber qual rumo tomar, embasbacado por perceber como ainda não se livrou daqueles anos tolos de escolhas tolas, por não ter entendido bem que não havia tantas saídas assim daquelas ruas desertas, minúsculas e quadradas. Também cheio de raiva por tanta chuva tomada aos quinze anos: ela alagou minha roupa, colou-a próxima demais do corpo, penetrou meus poros sempre dilatados e encheu minha alma de melancolia. Se soubesse o quão fundo seria o dano das ruas vazias sob as mesmas madrugadas iguais, talvez pudesse ter levado mais a sério as precauções a serem tomadas em dias chuvosos. Até porque, no meu íntimo, sei que, por um lado, quero desesperadamente encontrar as fissuras que me permitirão quebrar o concreto e construir a verdadeira saída. Mas, por outro lado, se choro profundamente, é pela sensação de que nunca mais vou recuperar aquela vontade desesperada de tomar chuva sobre o corpo todo exposto, devaneando possibilidades sem fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sobre o Vazio

                 Quando e tão logo passa a avalanche da rotina, dos dias sem conta reclamando de tudo ainda a fazer e sonhando com a vontade de desligar, sinto que o botão de desligar pifou. Mas quando reflito atento, a conclusão é ainda pior: preciso muito desligar, mas luto contra a tendência inercial do meu corpo ao desligamento. Desligar também é lembrar que é só isso, que se não preenchidas as horas que seguem com tarefas sem conta, que se não alimentada a enorme ilusão de ser “sabe-se lá como” importante, o vazio apenas se dilata. E eu odeio falar em vazio, soa como tristeza de garoto de classe média alta, de habitante de país escandinavo, de indivíduo que tem todos os predicados para ser feliz e apenas chafurda na melancolia, nos seus quadros cinematográficos de desertos em preto e branco, onde há paisagens desoladas de amplitude asfixiante, liberdade perigosa e a imensa sensação de deslocamento, de não pertencimento , de insignificância...
                Nem sei sobre o que é isso que agora escrevo, é quase como a percepção de que a agitação é raivosa, mas que preciso cada vez mais dela para não olhar para a agressividade que tantas vezes se insinua na superfície trêmula da rotina. O pior é a compreensão da importância do rolo compressor que só me deixa respirar para reclamar dele entre uma xícara de café e outra. Digo demais sobre o que faria se tivesse total liberdade, mas a total liberdade me torna melancólico, ela é como as paisagens áridas dos westerns em preto e branco que habitam minha mente em noites mal- dormidas: assustadoramente irresistível e destrutiva. A liberdade é o medo de mim mesmo, é o que sempre busco apenas porque tenho certeza de que nunca atingirei. Busco a liberdade como o ente que alimenta a narrativa fraudulenta do meu eu, aquele que diz sobre quão magnífica seria minha vida se ela estivesse em minhas mãos. Aquela ideia abstrata que justifica a violência veloz de seguir em frente a qualquer custo.
                Para mim, o vazio talvez seja a exibição da fraude, o confronto com o medo da liberdade. Mas sei que essa noção do vazio ainda é incompleta, pois falta a certeza do deslocamento. É a sensação de deslocamento, de estar sempre no lugar errado, que me faz correr. Talvez tenha sido ela que impulsionou a Marcha para Oeste, responsável por tanto sangue derramado e por minhas horas demais gastas em frente a uma das poucas atividades que me faz parar: a abstração imagética dos vinte quadros por segundo, esse buraco negro no real que preenche meu vazio com mais cenas para retroalimentar a melancolia e o frenesi.             
               Saber do deslocamento é correr cada vez mais na busca de sujeitar espaços novos, como se não houvesse outra relação possível com o desconhecido que não a sujeição. Quando penso em tudo isso, me assusto e me convenço de que devo aprender a parar. Só que ninguém me ensinou a parar e apenas contemplar a paisagem imensa. Se eu paro, caio na tentação de acreditar que posso dominá-la à galope feroz. Porque sua imensidão me assusta. Seu silêncio me perturba. Sua calmaria me enlouquece. Sua solidão me destrói.
             O vazio, tão rebuscado nesse retrato imperdoavelmente afetado, também pode ser dito em termos muito simples e infantis: pura solidão. Não sei ficar sozinho, embora tema tanto esse ente desconhecido que chamo de outro. O outro é a imensidão que me deixa em pânico. Toda a imensidão de tantas coisas que gente humana pode ser: tanta coisa incrível, mas imprevisível. Previsível é o motor da rotina: só para frente, sem chances de retorno, sem escolhas originais. Talvez esse deslocamento seja apenas o medo infantil do outro, pois não sou tolo de alimentar a ilusão de que se pode controlar o outro. Um ser humano é assim, belo porque é como é. E tudo isso me faz entender que talvez o que mais me atraia na frieza em preto e branco das imagens forjadas (será?) é o calor humano que irradia delas, porque ele esquenta sem o risco de queimar, já que está preso na tela de projeção.

                O vazio nunca acabará, isso é fato. Só que existe uma possibilidade ainda não tentada: a de mergulhar fundo nele. E isso ainda é mais assustador do que gente humana. Até porque, não se faz isso sozinho: só se faz de mãos dadas com gente humana com tanto medo como você. E pode ser que isso, mais que todas as artimanhas ilusórias da rotina, realmente dê importância a vida. A jornada em direção ao outro: que isso dê uma razão de orgulho com a qual se possa desligar em paz.  Que seja a última cena que eu contemple antes de me dissolver na paisagem gigante, adimensional, céu e mar sem fim, vastidão indomável que tanto me aterroriza por lembrar o que sou longe das muitas xícaras de café: insignificância efêmera. E se há alguma situação em que uma efemeridade pode ser memorável, é aquela na qual ela é compartilhada e significada em conjunto.