Alguma utilidade?

Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Presságios

“Se você vier me perguntar por onde andei / No tempo em que você sonhava/ De olhos abertos, lhe direi: / Amigo, eu me desesperava”.
(A Palo Seco – Belchior)
                
             O primeiro presságio estava nos olhos do pai. Ela soube, sem entender muito bem como e por que, que o estava perdendo. Ela, “a menina dourada, a pequena heroína, seu maior presente”, de repente não significava tanto assim. Ela pressentiu porque não lhe deram outra palavra, apenas lhe disseram que garotas tinham intuição. Mas, na verdade, ela sabia. Sabia que crescia e que ele temeu não a ter mais. Ela bem poderia ter entendido se ele tivesse explicado, dito com calma, deixado claro que a posse egoísta era parte do seu amor, mas não todo ele e que ele aprenderia a lidar com a adolescência. Ele não disse palavra, apenas se foi, distante, sem colo, sem abraço, aquele olhar duro e petrificado de quem procurava nela um passado que jamais voltaria.
           Ela se resignou, mimetizava rápido qualquer papel que lhe dessem. O presságio, contudo, inaugurou uma nova era, a partir da qual muitos outros viriam: ela era a garota que sempre sabia o que não lhe diziam, mas entendia bem os perigos de verbalizar. Afinal, ninguém poderia suspeitar que ela tinha presságios. Não que ela os considerasse presságios, porque havia toneladas de sinais objetivos: eles estavam sempre gravados nos olhos alheios, na posição das coisas, na maquiagem, nas expressões faciais, no que lhe mostravam sem dizer, no que lhe sugeriam sem explicar, no silêncio que sustentava ordens invisíveis.
Todavia, ela também compreendia que presságios eram bruxaria, trevas, irracionalismo, obscurantismo e ela não queria ser queimada. Não queria a distância de novo, queria o afeto que davam à menina, mas também queria ser a mulher que escolhesse ser. A adolescência, entretanto, veio para tornar essa missão mais difícil. Os cabelos presos, as saias longas, os óculos fundos, o arquétipo-modelo. Estudiosa, gentil, sorridente com todos, coadjuvante perfeita: teve o presságio de que esse era o melhor caminho a seguir.
Ela assistiu paciente suas amigas trocarem inúmeras vezes de namorado, mas não sentiu inveja. Sim, teve curiosidade, vontade, e, muitas vezes, cansou-se de sua solidão. Contudo, amava seu rico universo interior, a empatia que lhe proporcionava tantas relações, os livros que lhe ofereciam tanto conforto, os planos de fuga que lhe davam tanta motivação.
Ainda assim, eventualmente veio o primeiro namorado. Ele aproximou-se devagar, com delicadeza e insegurança. Como ela, tímido e gentil. E ela se sentiu, pela primeira vez em anos, menos sozinha. Com o tempo e a intimidade, entretanto, a natureza da relação foi mudando drasticamente. Os presságios voltaram quando ele passou a questioná-la sobre todos os passos, quando a gentileza e a timidez tornaram-se narcisismo voluntarista. Ela, novamente, sentia-se infinitamente cansada: descobriu que ainda estava sozinha, mas já não era mais livre. Fora um dia? A vida reduzida a agradar um outro que jamais sorria, uma corrida sem fim. Então o desejo nela morreu, mas ela não sabia como falar sobre isso. Ninguém jamais havia lhe contado sobre desejos, ela era apenas pressentimento e intuição. Seguiram-se meses de sexo unilateral, não verbal e cada vez mais agressivo.
Ela não precisou fazer o teste para saber que estava grávida e nem precisou pressentir para entender que jamais veria o namorado de novo.  Que perderia o pai para sempre. Que seu útero a serviço da sociedade era também sua letra escarlate, uma vergonha pela qual sua mãe também seria responsabilizada.  Ficou o pressentimento de que ela deveria ter esse bebe, porque isso também estava gravado na linguagem corporal da diretora do colégio no dia em que conversaram: cabeça levemente inclinada, olhar perdido num misto entre pena e condescendência, sorriso falsamente acolhedor e palavras de ordem. “Sexo implica responsabilidade, você ainda tem muita vida pela frente, agora deve assumir as consequências de seus atos”.
Com um certo sentido de dignidade, ela assumiu. Foi assunto da cidade por meses, mas seguiu sem olhar para o lado, sua letra escarlate cada vez mais exposta na barriga que crescia, nos seios que inchavam, na solidão profunda da maternidade. Solidão que se pressente, mas também não se nomeia, porque não se nomeia aquilo sobre o que não se fala. No quarto mês, sofreu um aborto espontâneo. Repreendeu-se: abortista, ela deveria ter pressentido antes que havia algo errado, a marca da desgraça nos olhos sem brilho do pai, no namorado desaparecido, no sorriso amarelo da diretora da escola, no desespero profundo da respiração carregada da mãe.
Também por isso, não questionou as amigas que dela se afastaram e jamais ofereceram qualquer tipo de suporte durante toda essa prova.  Compreendia que elas também tinham seus presságios e neles a amiga grávida só poderia ser um mau agouro. No fundo, sentia-se culpada, mesmo sabendo ter cumprido exemplarmente o papel que desenharam para ela. Voltou para a escola apenas para descobrir que nenhuma letra escarlate é apagada durante a adolescência. Seguiu mais sozinha, cada vez mais determinada. Tentou tanto não ser queimada, mas acabou bruxa do mesmo jeito. Após tantos anos de presságios, devia ter aprendido melhor com os gregos: não se dribla um destino que já lhe foi escrito.
Não obstante, ela insistiu. Determinada a cavar seu espaço no mundo sozinha, estudou febrilmente, movida por um misto de ressentimento e esperança. E, pela primeira vez em anos, não pressentiu, apenas soube: dali iria sair. A primeira da família na universidade, até hoje chora ao lembrar do olhar úmido do pai quando soube, do abraço apertado da mãe, de como, por uma noite, pôde ser a “Geni que salvou a cidade”. Não esperou amanhecer, para que não houvesse tempo de a transformarem em a “Geni boa de cuspir”: mandou-se dali para não mais voltar.
Na universidade, nunca mais teve presságios. Encontrou as palavras exatas para descrever a medida de suas limitações e grandezas, a válvula perfeita para canalizar sua revolta e as companheiras certas para liberar toda sua potencialidade. Assim, pela segunda vez desde a infância, sentiu-se menos cansada, a alma menos retorcida.
Como era das mais inteligentes, entendeu muito rápido que sua geração fora enganada. Que não havia como o país se reconciliar, porque não havia país nem Nação. Ela entendeu muito antes, porque viu claramente o delírio de misoginia que tomava conta do debate público. Disseram-lhe que estava exagerando, sendo irracional, que aquilo era apenas um presságio. Que ela estava agindo como a presidenta, que também era bruxa, irracional, descontrolada e tinha apenas presságios.
        Infelizmente, ela estava certa. Não havia potência e nem empregos para diplomadas, muito menos para ela: negra e periférica. Ela, novamente, seguiu sem olhar para o lado. Agora sabia quem era, o quanto podia e não iria desistir da luta. E bateu em tantas portas e teve tanta humildade e energia e mostrou tanta vontade (ninguém jamais imaginaria o quão fundo era seu cansaço) que conseguiu uma oportunidade. Mas o diretor da escola passou a assediá-la logo no primeiro mês e ela percebeu que não tardaria a perder aquele emprego. Ainda assim, jamais cedeu: não seria capaz de carregar outra letra escarlate, a primeira ainda queimava em sua barriga certas noites. Sem emprego, logo faltou dinheiro para o aluguel.
           E ela, que já passara por tanto e jamais quebrara, começou a achar que jamais se recuperaria de seu cansaço nessa vida. Talvez fosse melhor morrer como bruxa e encarar a danação eterna que sempre fora seu destino. Estava tão à beira do abismo que a vertigem era irresistível demais, era silêncio, acolhimento e liberdade. Passou o batom vermelho forte e se maquiou com gravidade. Preparou as pílulas e o copo de água, posicionando-os cuidadosamente na cabeceira. Deitou-se na cama, corpo nu estirado em oferenda, e inspirou fundo para tomar coragem. Mas então o telefone tocou e ela soube que devia atender. Era sua mãe, estava preocupada porque ela não ligava há dias, queria saber como ela estava, como era o emprego, se estava se alimentando direito.

         Ela respondeu à mãe impassivelmente, como se tudo estivesse normal. Por dentro, contudo, algo se consertou. Com a força de vontade dos que já contemplaram o abismo bem de perto, ela se vestiu, limpou a maquiagem e o batom: novamente, era livre. Seguiria com o plano: seria quem ela escolhesse ser. Não precisava pressentir para saber que ganharia essa. Porque não perdera até agora e o destino ela já conhecia muito bem: era masculino, de ego inflado, morrendo de medo de mulher. Rumou à rodoviária e comprou uma passagem para sua cidade-natal. Iria visitar a mãe para lhe dar um abraço bem forte e repousar a alma.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Sobre o que perdemos


Escrevo tão somente para listar o que perdemos. Obviamente, essa não será sua hora favorita, mas essa sempre foi minha hora inevitável. Pense nessa carta como aqueles intervalos de almoço, nos quais eu aproveitava os poucos instantes livres do dia para despejar sobre você minha fileira de desesperos, e você apenas aquiescia mudo. Nessas horas, eu entendia que não deveria nem ter começado. Porque você era diferente.  Quero dizer, você sabia sempre da realidade desfigurada à sua volta enquanto vestia a fantasia do dever, mas era capaz de se transportar para outro mundo quando podia tirá-la. Naquele mundo, existia a paz do almoço compartilhado vagarosamente, a vida como um desfile de amenidades agradáveis, um mundo no qual as pessoas eram incrivelmente gentis.
                Eu, veja bem, nunca pus o uniforme do dever. Por conseguinte, sou incapaz de tirá-lo, vivo mesmo em estado de perplexidade e não consigo jamais apertar aquele botão que todos usam, aquele que emudece todos os ruídos estéreis e desesperadores da realidade à volta. Só me restar escrever sobre o que perdemos.
                E perdemos tanto, quem diria! Perdemos enquanto sabíamos que perdíamos. Perdemos enquanto, ai de nós, estávamos dando conta de tudo que se passava. Ainda assim, subestimamos nossas perdas por larga margem. Até meu vocabulário, repare, antes tão desenvolto para discorrer sobre os aspectos estéticos da existência, tornou-se mais técnico, largas margens e grandes retornos, realidades simples e silenciosamente agoniantes. Mas perdemos passivamente, mantendo a rotina, acordando cedo e olhando calmamente o mesmo belíssimo nascer do sol sobre o mesmo famoso solo pátrio, tomando o mesmo cafezinho e chorando por dentro enquanto colecionávamos belos e coloridos eletrodomésticos.
                Ah, como perdemos imensos montantes... Perdemos complexidade, “market share”, flexibilidade, olhar vago e lento sobre as belezas contraditórios da existência. Perdemos pedaços da alma, certezas, exposição de mercado, laços antigos, narrativas sobre nós mesmos, valor acionário... Perdemos poder de sermos síntese entre o mundo tal qual é e tal qual dizem que ele deve ser.  Perdemos a prepotência ingênua, o amadorismo romântico, o título da dívida.
                Ainda posso salvar seu almoço, contudo, se disser que também me dei conta de que ganhamos algo. Foi hoje, enquanto fitava o branco reluzente dos azulejos do meu banheiro ao escovar os dentes pela manhã. Checava no espelho se não deixei nenhum pedaço de comida próximo à gengiva e matutava a respeito de mil preocupações tolas.  A iluminação já veio como “insight” mesmo, a lembrar que minha língua já fora mais rica, como também minha existência já portara significados mais complexos. Tudo desmoronou, de uma vez, e já não me ilumino mais. Só tenho “insights”. Veio de súbito, na forma de lembrança.
Foi há muito tempo, sentado em frente a um lago e pescando com meu pai, após tomar minha primeira cerveja. A brisa leve beliscava a superfície entediada da água e eu, pela primeira vez, não me aborrecia com a ideia de que a vida poderia não ser uma sucessão de fatos. Sucessão de fatos são, no fim das contas, muito simples. A lentidão, por outro lado, pode ser complexidade.
 A natureza à volta era menos colorida e segura que meus muito eletrodomésticos, mas naquele dia entendi que ela era a única salvação para os que não vestiam (e, portanto, não tiravam) nunca o uniforme do dever. Era tão lenta a natureza e tão acolhedora a leve embriaguez. Poucos ruídos dispersos, a vida bem podia também ser um pouco aquilo, porque aquilo deixava espaço para que eu também fosse narrador.  Adorei a iluminação: a vida como incerta narrativa a ser rabiscada. Mas então olhei para meu pai e me ocorreu que ele talvez já tenha se sentido da mesma forma enquanto pescava com meu avô. O que será que mudara desde então? Sentia-se ele autor da própria narrativa? E se ele perdera também essa autoria? Como ele fora capaz de resistir a tal processo?
Essa ideia difusa me assustou profundamente e tratei de afastá-la. Veja, caro amigo, quão engraçada é a memória. Jamais apostaria que um momento tão lírico viria novamente à minha mente enquanto procurava pedaços de comida entre os dentes. E que o lirismo seria reduzido à objetividade de um “insight” e que aquele quadro, aberto e lento, voltaria emoldurado pelo fatalismo funcional, sequencial e veloz da rotina.
Estou sendo prolixo, eu sei. Perdoe-me. Vamos às conclusões. Espero sinceramente que ainda não tenha acabado a sobremesa.
Desde ontem, a realidade já desmoronou completamente. Na verdade, há meses ela vem desmoronando completamente dia após dia, suas camadas carregadas pelo vento leve que entra em nossas cozinhas enquanto assistimos ao nascer do sol e tomamos café. E nós viemos vivendo todos esses dias de desconstrução completa sem sequer nos darmos conta de que ela ocorria.
Veja, meu caro amigo, ficamos tão resistentes que vivemos a prova sem saber que estávamos sendo testados. Mudamos tanto e de tal forma que aprendemos a resistir sem fazer causo disso. Perdemos tudo desde ontem, é fato, mas ganhamos também a mais imensurável capacidade de não tomar nota do que se perde.
Pagamos um preço, não nego.  Sequer sei o que nos tornamos, tampouco acho que gosto. Entretanto, que não duvidem de nossa resiliência, pois já somos sobreviventes tão calejados que sequer percebemos o que éramos: isso, sobreviventes. Achei tal ideia tola o máximo, até porque notei que a palavra sobrevivente é formada após a adição de um prefixo ao radical “vivente”. As pessoas antes precisam ter sido “viventes” para ganhar a casca grossa conferida pelo prefixo “sobre”. A casca as cobre e é capaz de tapar a entrada de luz, mas também garante proteção quando os mais fortes abalos sísmicos ocorrem.
Era esse, enfim, o meu “insight”, quis dizer que ganhamos algo sendo perdedores. Agora tudo parece meio tonto, carregado de pretensões demais e qualidade técnica de menos. Não sei nem mesmo se ficou claro, agora acho até que jamais foi “insight”, apenas escuridão. Ou duas noites mal dormidas.
De toda forma, tenho medo de que esqueçamos que já fomos viventes contemplando o lago antes disso tudo. E que respirávamos a vida com tanta alegria que queríamos mesmo congelar aquela sensação para sempre. É, meu caro amigo, talvez nada nos dê mais consciência do tempo que escorre pelas mãos do que essa alegria tão intensa que até inebria.
Perdoe-me se estraguei seu almoço com minhas observações soturnas. Você sabe como adoro perturbar sua rotina.  Ressalte-se, contudo, que admiro demais a disciplina com a qual você serve à causa da estabilidade. Você é o tipo de pessoa que os mundos em desagregação precisam. Eu, por outro lado, sou um produto que precisa ser descontinuado. Espero que tenha gostado da torta de morango da cantina da Dona Maria que você sempre come de sobremesa. Venha me visitar algum dia, se sobrar espaço em sua agenda. Sinto falta do truco às quintas. Mande notícias.


Sinceramente,

sábado, 2 de julho de 2016

Cotidiano em Lacunas

Levantou-se com a filha lhe sussurrando algo delicadamente, lembrando-lhe que passara demais da hora de ela levantar-se. Ela há muito esquecia que tinha de acordar, aquela mistura interminável de dias e noites, o quarto iluminado sempre e apenas pelo abajur de cabeceira. Mas a filha quis lhe vestir, lembrou-lhe que ela precisava tirar aquele pijama, “ainda havia vida lá fora, existe um mundão pulsando mãe, vamos lá, a senhora tem que se esforçar...”
       E ela, a senhora, entendia algo, ainda que pela metade: captava parte do esforço da filha, comovia-se até, mas algo a puxava de volta para seu mundo de meios gestos. Assim lhe vinha a realidade: pela metade,  poucas palavras, nem dia nem noite, uma existência de faces vagamente familiares.
           A filha, contudo, insistia. Ela então cedia ao ritual de todos os dias: reunia todo esforço que podia para se levantar, deixavam que lhe vestissem, que lhe contassem histórias e sussurrassem frases motivacionais. Via a dor nos olhos alheios, mas isso só reforçava seu olhar inexpressivo. Não queria olhares demais, não era mais capaz de se conectar com tamanha intensidade. A filha a pegava pelo braço e a guiava lentamente até a porta, pacientemente lhe relembrava como era andar. E ela ia, conduzida por quem já tantas vezes tivera de conduzir, num meio papel invertido que  a vida não lhe preparou para encarnar.
            E por raiva da vida, ela ralhava com a filha. Ela ralhava sabendo que não devia, mas sabendo que jamais pediria desculpas. Algo difuso dentro dela sempre torcia para que a filha fosse capaz de perdoar e relevar. Raiva despejada no quarto vazio à meia-luz, ela voltava a andar lentamente. Saíam de casa, rumo à padaria, ela veria em breve como estava lindo o dia lá fora, lembrava-lhe a filha. Ao ouvir isso, ela quase se irritava de novo, mas respirava fundo e seguia em frente. A filha não entendia que, para ela, não havia mais dia. Nem tampouco noite, o mundo era um borrão incognoscível, algumas vezes mais nítido pela presença de um quarteirão que lhe invocava certa memória longínqua, sons que conhecia desde pequena, um rasgo de luz na realidade opaca da memória.
              Ela parava a cada dez metros e pedia para voltar, mas a filha insistia, agora mais impaciente. Às vezes, demorava-se para fitar um banco na praça do lado da casa, ou para comentar sobre algum estranho que há muito estava morto. Às vezes, ela chorava muito. Como a esmagava aquela solidão, a consciência de ser a última representante de seu mundo. Ela e as ruínas que só ela reconhecia como tais, era essa a consciência que tomava conta dela a cada instante que estava desperta. Essa consciência hiperativa era a verdadeira razão pela qual ela perdera todas as demais consciências, vagando no limbo alaranjado anil de um mundo sem transições. O tempo não corre, arrasta-se, como se estivesse descansando depois de perder o fôlego correndo em todos os dias antes daqueles dias. A partir daqueles dias, que nem dias eram (porque dias não existiam mais), o tempo só se prolongava lento e estático, a vida como a imagem embaçada formada pelo ar próximo ao asfalto quando tudo parece quente e imóvel demais.
          Entram na padaria com delicadeza e todos a olham comovidamente. Ouve a filha pedindo o pão mais crocante e moreninho, porque sabe que a mãe sempre gostou assim. Ela, a mãe, prefere observar outra mãe, que está puxando uma criança pelo braço. O menino grita, mergulha no chão, chacoalha ritmadamente as pernas e berra. Aponta agonicamente para a vitrine iluminada cheia de doces. A mãe tenta arrastá-lo para forçar que levante-se, mas ele permanece estático no chão. Teimoso, parece ficar até mais pesado. A mãe o larga e dirige-se ao carro, ameaça deixá-lo. Ele não levanta. Ela respira fundo, dá meia volta, agacha-se e começa a dizer algo no ouvido do menino: de súbito, ele assume uma expressão suave e corre para sentar no banco de trás do automóvel. A cena lhe lembra algo, um sentimento que remete ao fenômeno do dia tocando a noite e fazendo ambos deixarem de ser dia ou noite para serem somente essa unidade arrastada que ela vivencia a cada segundo. Essa sensação não se articula inteira, contudo, pois a sensação de espremer-se entre lacunas, como a saltar sobre as pedras de um riacho, ganha o controle sobre ela novamente. E isso volta a irritá-la profundamente, mas, por sorte, a filha chega com o pão nesse exato instante e ela encontra alívio em sua face de afeto.
             Outra lacuna e ela está novamente no quarto iluminado pelo abajur à meia-luz. Um prato com farelos de pão em sua cabeceira. Ouve a voz da  filha, sussurrando ao telefone, vindo de algum cômodo próximo. Ela se estende na cama e fecha os olhos. A escuridão indefinida laranja-anil toma conta por alguns minutos antes dela adormecer. E então ela sonha...
Nos sonhos, há pedaços de madeira ligando as pedras do riacho. O dia separa-se novamente da noite. Ela é a mãe puxando o braço do menino para que ele entre no carro. Ela também é a mãe abaixando e sussurrando palavras conciliadoras no ouvido dele. Depois ela está na praia assistindo ao sol mergulhar sobre o horizonte tal qual o menino birrento mergulhando no chão da padaria, como se cedendo espaço para a escuridão estrelada das noites limpas. A lua lhe pega pelo braço e lhe conduz  à imensidão azul, onde todos são solitários e vizinhos e, por isso, todos veem beleza na solidão. E então ela sente uma paz de completude que achava não existir. Ela decide não acordar nunca mais.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Pôr do sol sem tomar fôlego

Life has come a long way since yesterday I say
And it’s not the same old thing over again I say
(Ziggy Marley – True to Myself)

Para você

                Foi capturado por uma imagem: o pôr do sol sobre o mar, que o mundo roesse suas velhas engrenagens lá fora e ao seu redor, que sua pureza já tivesse se esvaído e pouca ilusão restasse sobre si mesmo e que o pôr do sol e a praia fossem solidão e melancolia tão somente, ele jamais dexaria de gostar demais do laranja que envelhecia e sumia longe,  corria embora do mar e da vista, contando mais da passagem do tempo do que todos aqueles anos abarrotados de cansaço sobre seu ombro, pois de cansaço ele entendia, ele  que vivia sempre cansado, não sabia quando comecou, nem por que não passava, sequer gostava do próprio cansaço, até porque entendia seus privilégios e era grato por eles, mas no fim sempre venciam o tempo e a noite, aquela certa falta de vida pelo excesso dela mesma, a sensação de ter deixado de pensar sobre várias coisas que ele devia ter pensado no dia, a certeza de estar se distanciando de si mesmo e da própria humanidade: ah, isso seria curado pelo pôr do sol sobre o mar, a vida se alongando mais do que a realidade permitia, a preguiça lírica renovando certezas perdidas, mas nada disso sozinho, não sozinho, nem existiria tal ideia e tal fenômeno se fosse talhado apenas para um, isso só com você, porque você é também o pôr do sol sobre o mar, embora seja vivo e se mova para longe da costa, você também sabe bem dos tempos que se alongam, de toda energia que se perde quando se está longe da delicadeza e de toda beleza que não se vê quando vivemos de costas encostadas um com o outro, sem jamais nos olharmos nos olhos, sem jamais fitarmos o grande halo laranja sobre o mar, ignorando a vida que só é intensa e forte quando assistimos a esse espetáculo juntos, quando contemplamos a intensidade de estar em nós, já que então podemos nos perder um pouco na ilusão necessária de que recuperamos todo tempo perdido e não haverá mais aquela imensa fadiga dos poucos muitos anos já gastos sem chegar a lugar nenhum, e  todo tecido de vida apodrecido por divertidas risadas cínicas é renovado e, por alguns minutos, podemos nos fingir certos de que a vida é tão larga e generosa como a imensidão azul salpicada de laranja febril, o vento leve acariciando nossa face, o mar infinito no qual nós cabemos, e, por óbvia extensão, o mundo inteiro também.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Meu pai([ís])


“E a gente fez nosso futuro/ Quase quebrando o nosso mundo...”

(Nosso Mundo – Barão Vermelho)

          É irônico, mas foi muito longe de meu país que encontrei pela primeira vez meu bicho papão.   O bicho papão era um homem, mas quase não vi seu rosto: seu carro, algum modelo de Ford bem antigo (da época em que os designers não se importavam em abusar de ângulos retos), estava completamente coberto de adesivos, cartazes e dizeres. Não esqueço o primeiro em que bati o olho: era uma ofensa racial inominável, escrita em letras vermelhas sobre um fundo branco. Meu coração disparou de súbito. Por um breve instante, meus olhos cruzaram com o do condutor do veículo: um sujeito de meia idade, poucos cabelos, camisa listrada e olhos inexpressivos e duros. Eu quis muito apertar o passo, quis mudar de calçada, desaparecer, voltar para qualquer quarto protegido inexistente, guardado em alguma lembrança difusa, mais estado de espírito que imagem.
É verdade que muitas vezes já havia imaginado como seria encontrar pessoalmente o que até então era para mim um personagem. Eu sempre me questionara se havia alguma maneira pela qual todo aquele ressentimento imenso poderia se humanizar caso ganhasse rosto.  Mas, para meu desespero, o homem sem face era carro de ódio, o carro era todo palavra e imagens e as palavras e imagens eram só violência pura e concentrada. E então eu senti-me mais fraco do que nunca, mais impotente e descartável do que jamais fora: porque nem toda razão letrada, racionalidade elegante ou ponderação razoável fariam a imagem daquele carro e a lembrança daquele olhar saírem de minha mente.  A razão burguesa é piada de mau gosto para a força irracional. Foi então que lembrei do meu país e quis chorar.
É engraçado que aquela também tenha sido a manhã em que eu tenha lido a seguinte manchete em um blog de um famoso comentarista político brasileiro: “A crise ganhou um novo componente. E ele veste farda e pilota tanques.” Engraçado ou providencial,  já que da realidade vemos o que buscamos e não existe nada mais plástico do que a tal verdade. A minha verdade naquela manhã era a verdade dos desapontados, aqueles que acreditavam até o último minuto que seríamos melhores.
 Não estava sozinho nessa. Nem de longe. De qualquer forma, talvez por certa mesquinharia que andei diagnosticando em mim recentemente, senti-me mais sozinho do que nunca, como se sentem todos os ingênuos quando começam a enxergar cruamente os mecanismos operando por trás de suas ilusões. Havia tempos que pescava dizeres se formando em pedaços amorfos de minha mente, uma necessidade imensa de falar mais e ainda além dos meus costumeiros excessos, buscando uma primeira pessoa que fosse mais íntima da que geralmente sou capaz de encontrar. Contudo, a realidade rachando trouxe mais urgência ao costumeiro esforço de costurar os poucos pedaços de verdade aos quais ainda ouso me apegar.
E foi então que lembrei de um texto que havia escrito ainda nos idos de 2014, quando o espírito daquele carro de ódio começou a se materializar em seus primeiros objetos: teclas descoordenadas, cartolinas mal pintadas, bonecos carnavalescos, bolas de futebol furadas, muros repintados, mesas gargalhantes, letras maiúsculas, letras minúsculas cheias de si... O ódio cabia em tantos espaços e  como tinha propriedades subcutâneas! Quis relê-lo, ele me trouxe algum alento, ainda naquela época já era mais jovem que hoje.  Se não o publiquei antes é porque o julgava íntimo demais, alma revirada do avesso sem nenhum cuidado estilístico. Seria um pecado em tempos comuns, mas não sinto tempos comuns. Então o reproduzo abaixo, como quem também o reescreve.
Do dia em que Lula foi eleito, em 2002, lembro-me de duas coisas: de que caía uma chuva fina em minha cidade e também de que foi a primeira e última vez que vi meu pai chorar. Quando decidi que precisava (mais do que queria) escrever sobre meu pai, decidi que queria começar o texto com essa lembrança. Porque meu pai sempre veio a mim aos poucos e, talvez por isso, seja muito mais fácil para mim falar sobre ele do que para ele. A verdade é que ele  sempre foi um homem político, no sentido completo do termo, daqueles que acreditam que quaisquer conquistas, responsabilidades ou culpas sempre são, em alguma instância, coletivas. Meu pai também é, sem dúvida alguma, o melhor homem que conheço.
          Memórias de infância, lembro-me muito do silêncio de meu pai. Falava pouco, quase nada sobre si e costumava perguntar muito sobre os outros. Infelizmente, não herdei essas características. Trabalhava demais, nunca chegava antes das dez da noite em casa. Saía antes das seis e meia da manhã. Parecia sempre cansado.
 Meu pai entendia homens de lealdades simples, desde que fossem francos e tivessem posição. Em tudo proletário, meu pai: na alma e na postura. Em tudo um homem da Guerra Fria também: palavras objetivas, expressão clara, sem dobras. Trabalhava doze horas por dia e sempre chegava em casa de mansinho. Isso me lembra o quanto admirava o pai. Calado, gentil, até perdoava seu filho em cima do muro, comedido, condescendente e contemporizador. “Bunda mole”, vá lá, “mas de bom coração”.
Dava seu melhor quando estava presente. Tentava ver filmes conosco toda quinta-feira e, invariavelmente, caía no sono, derrotado, no sofá. Costumava acordar sobressaltado à noite, ar faltando, respiração ofegante: dizia-nos que era apnéia do sono. Eu tinha muito medo dela, porque achava que um dia aqueles pesadelos poderiam levar meu pai.
            Mais tarde, soube que meu pai tinha princípios políticos (e muitos gostavam de falar isso em voz baixa, mão do lado da boca, como se fosse um pecado que poderia ser perdoado devido a todas as outras virtudes dele). Soube que estudara em Brasília também, ainda nos terríveis anos setenta de chumbo grosso.
Certa feita, contou-nos sobre como invadiam o alojamento estudantil à noite, armados e fardados, e, no dia seguinte, alguns estudantes não estavam lá. Também mencionou histórias sobre tanques rodeando corpos estáticos. Formei uma imagem: portas da universidade se fechando, luzes se apagando e todos deitados no chão em fila, enquanto tanques subiam o pátio e circundavam os corpos vivos vagarosamente. Eu sempre indaguei o porquê daquilo e ele nunca respondeu. Eu não podia compreender ainda as ações inúteis tomadas apenas pelo prazer de intimidar. Dessa época, veio sua apnéia do sono que durou décadas.
          Os tanques e as filas ordenadas, a sociedade em seu lugar: essa idéia comecou a me machucar um pouco também. E doía sempre e tantas vezes depois, quando ouvia pessoas de ar triunfante, sedentas em sentirem-se corajosas por exibir sua crueldade, dizerem na frente de meu pai que a ditadura havia sido absolutamente pacífica. Ainda assim, nunca ouvi meu pai responder nada a essas pessoas.
         Na adolescência, também odiei meu pai, porque o achava muito grande: como poderia um dia sequer alcançá-lo? Meu pai, que tentava olhar a humanidade até das pessoas que o condenavam. Meu pai, que nunca me ensinou a odiar. Se meu pai me veio aos poucos, é também porque me era difícil olhá-lo diretamente nos olhos. Tinha o defeito da sinceridade. Mais difícil quando comecei a entender o motivo pelo qual algumas pessoas o ofendiam. Também compreendi por que ele nunca mais choraria de novo. Mas nunca aprendi a aceitar.
Eu, mas não meu pai, que apenas dizia: “Elas (as pessoas, todas elas e cada uma) estão em suas lutas...”
      Meu pai sempre seguia em frente. É isso o que mais guardo dele. Ele caía e se levantava como se nunca tivesse caído. Ele também tinha sua lealdade simples: precisava acreditar na solidariedade. Como ideal e profissão de fé. Precisava disso para poder continuar buscando livremente um sentido para a bagunça da existência. Uma forma de resistir à força impassível e cruel que contorna filas de jovens deitados apenas pelo prazer que isso traz.
        Meu pai tem muitos defeitos, eu bem sei. Quem não os tem?  Se escrevo sobre ele, é, na verdade, para homenagear todos os homens e mulheres como ele. Aqueles homens e mulheres que, independentemente do espectro político a que pertencem, independentemente das ideias que defendem, acreditam que nunca devem roubar a humanidade alheia. Nunca devem quebrar as pessoas, pisando com désdem na luta de uma vida toda. Que, em todas as suas batalhas e resistências, silenciosas ou no megafone junto à multidão, nunca gargalharam de um homem no chão, nunca apostaram no nosso pior. Que, assim como meu pai, ouvem absurdos calados e se desfazem do ressentimento assim como se desfazem de roupas pesadas após um dia extenuante de trabalho. Que souberam amadurecer, entender a distância entre o objetivo almejado e o mundo possível, sem nunca se desviarem dos propósitos nobres que os conduzem. Vocês estão em todos os lugares dessa sociedade, em todos os Poderes, partidos e grupos. Mas estão vivendo uma fase difícil, eu sei.
      Também, por isso, escrevo. Percebi que homens e mulheres que representam o oposto do que vocês representam estão prestes a tomar conta do país. Novamente, não me refiro a um partido, grupo ou Poder específico. Eles estão em todos os lugares, interditando o debate nacional, apostando nas nossas mazelas, ganhando corações e mentes. Muitos, nessa hora, começam, novamente, a culpar meu pai, a culpar homens e mulheres como ele. “Vocês poderiam ter feito mais!”, eles bradam. “Vocês são ingênuos!, eles insistem. “Vocês são desonestos!” , eles babam. “Vocês abandonaram a luta!”, eles continuam. Eu permito-me, nesse ato de condescendência, discordar de todos eles. A minha discordância é  a razão desse texto existir. A minha discordância  e meu amor pelo meu pai.
      Também eu tive pesadelos, noites mal dormidas e coração sobressaltado quando, ainda em 2013, percebi que a irracionalidade e o ódio iam tomar conta do país por um tempo. Agora não tenho mais. Eu entendi que, ainda que leve alguns séculos (eu provavelmente não estarei vivo para ver), o tempo desses homens e mulheres cheios de certezas e rancor está acabando. O fato é que eles têm o dom de conservar cadávares ainda por muito tempo além do momento de enterrá-los. Eu ouvi coisas demais calado, bem que tentei me tornar ressentido e, com certeza, comecei a envelhecer mais rápido do que gostaria. Por isso, digo, num extremo (perdoem-me por isso) ato de egolatria e narcisismo, que tenho a convicção plena de que o tempo de homens e mulheres como meu pai está apenas começando. É que as auroras costumam ser confusas mesmo e, às vezes, as madrugadas tendem a parecer mais longas do que deveriam.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Estrangeiro

         Para L., M., R. e S.

      “Você entenderá que a melancolia também tem uma beleza cortante”, foram as palavras que o amigo escapou em seu ouvido, no abraço de despedida. Na época, ele achou que entendia profundamente da beleza que existia na solidão contemplativa, de forma que não avaliou com a cautela devida aquele aforismo barato. Foi só ao olhar a neve caindo através do vidro da janela de seu quarto, contudo, que entendeu o vicío dolorido e reconfortante que só a melancolia saudosa faz adquirir. Ele vinha se dedicando a esse exercício há tempos, é fato, quase como se testasse o quão fundo sua alma podia mergulhar naquele silêncio branco e higiênico. Assim também compreendeu melhor como um mundo limpo poderia ser uma promessa tentadora e perigosa, encarnação maior de nossas pulsões destrutivas. A sujeira dos trópicos sempre lhe pareceria mais vida, o ímpeto que lhe tirava da cama todas as manhãs. Mas esses paradoxos que só se desnudam no silêncio tinham lhe cansado e envelhecido demais.
           Não era a neve, entretanto, o que mais andava lhe cobrando noites de sono ultimamente. Era o medo de estar vivendo no país errado. Não, não se referia àquele país que seus pés tocavam nesse momento, aquele que ele sempre soubera não ser o seu. Tinha mais a ver com o país imaginário, a pátria construída que carregava dentro de si, seu ethos, marcado na maneira exagerada com que gargalhava em público, perturbando e denunciando a harmonia da paisagem branca e silenciosa. Doía-lhe fundo a ideia de que aquele país não mais existia.
Era irônico que essa fosse a boa-nova trazida por todos aqueles campos alvos de distância.
A neve lhe fizera voltar a ouvir as canções da infância, a ler os livros da cultura legítima e a celebrar uma identidade que nunca soubera sua. Mas de repente ele também descobriu-se lendo livros que ninguém mais lê, ouvindo músicas sobre as quais poucos ouviram falar e lutando sozinho para alimentar uma narrativa nacional que, cada vez mais, era negada pela realidade. E por temer carregar consigo uma pátria imaginada, construída sobre mitos em desuso, desconfiava que tivesse sido condenado a ser estrangeiro para sempre.
           Ele procurou soluções, é claro. Queria se acostumar ao estranhamento. Saía para estudar em diferentes bibliotecas a cada dia, bem como mudava os trajetos que fazia em suas caminahdas matinais. Observava  introspectivo tudo à volta, o apuro dos detallhes saltando aos olhos, como um personagem que invadiu um filme que não lhe pertence durante uma cena particularmente emocional. Era o isolamento pleno, a incomunicabilidade de que só desfrutam os mais livres. Ainda assim, quantas vezes ele chorava e apenas queria ficar ainda mais sozinho, em total privacidade com sua pátria imaginada, o país que não existe mais e talvez nunca mais existirá, o lugar para o qual não pode mais voltar.  
Pensou em certos amigos da vida toda e amou como nunca sua família. Também internalizou a sabedoria profunda de outro aforismo barato, um alerta sobre a vida passar a galope, no mais infinitesimal piscar de olhos. Sim, a neve lhe ensinou sobre a passagem do tempo e sobre a cruel beleza de sua marcha unidirecional. É claro que também lembrou da maior paixão do fim da adolescência, aquela que talvez ainda sentisse o mesmo descolamento que ele, buscando um país sobre o qual desabar. Também a via pela janela, caras anônimas, pontilhadas na neve branca, tantas vezes idênticas umas as outras. Entretanto, nenhuma ria da mesma forma iconoclasta, tampouco cultivava hábito de fazer digressões sobre o vazio, gastar palavras pelo prazer de sua musicalidade. É que diferente sempre parece um pouco igual, familiar e cruelmente genérico e  impessoal. Estrangeiro em próprio corpo, lamentou também pela fala perdida e pela lacunas que invadiram a amada língua nativa, antes tão plena em expressividade. Talvez movido por vãos impulsos purificadores, permitiu-se, muito mais de uma vez,  a manchar a tela em branco com uma multidão clichês, procurando restabelecer certo sentido completo.
Vezes sem conta revoltava-se por ter subestimado tanto a rotina: as memórias que mais doíam eram aquelas de situações que ele vivenciara com a certeza de estarem condenadas à vala comum das banalidades. Outra vida, outro país, meu país, silêncio ao redor.
O única possível alívio, ainda que fosse aposta de risco, era encontrar outros ainda presos nesse mundo que desabou tão rápido, dispostos a encarar a luta vã em defesa de uma narrativa ultrapassada. Ele adorava essa ideia, adorava a luta pelas narrativas que não valem a pena senão pela beleza melancólica que sua quase-extinção encerra.
Assim, ele também saiu com pessoas, os bons amigos das madrugadas geladas, todos rindo coletivamente do deslocamento para não lembrarem do quão passageiro seria esse contato. Inventou outros simulacros de pátria, descobriu novas fontes de calor, divertiu-se  um pouco com o desespero que só a liberdade plena traz. Pensou sobre a origem, regrediu ao início, refez fins possíveis, procurou novas narrativas de país e permitiu-se acreditar no delírio de que voltaria para a mesma casa de que saíra.
De qualquer forma, ele sabia que aquela neve nunca desaparecia completamente de sua quente terra natal e, ainda que essa certeza o fizesse amar ainda mais o aconchego dos trópicos, também plantou uma dúvida perpétua quanto à veracidade de seu calor intenso e de sua luminosidade generosa.  E essa era a marca visível de sua condenação, evidência última de que  ele seria sempre o homem só na estrada esquecida, nos confins do Judas, insistindo em penetrar mais fundo naquelas terras largadas por Deus, naquele país onde ele vagava e sumia, equilibrando-se pé ante pé num muro imaginário, dançando na corda bamba dos anônimos, sempre a ponto de ceder à tentação do esquecimento.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Memória

‘’Não sei, mas sinto que é como sonhar 
Que o esforço pra lembrar 
É vontade de esquecer 
E isso por que? (diz mais)’’

(O Vento – Los Hermanos)

          Ele ouviu dizer que ela tinha começado a se esquecer e isso o machucou fundo. Foi ela quem primeiro lhe ensinou que memória era sentido e sentido era o tecido da alma. Mas começou com outro tecido, o dos filtros de café de pano. Desde muito pequeno, ele sentava em sua cadeirinha de madeira colorida na mesa da cozinha e a observava coando café. Ela sempre narrava a mesma história, porque ela mesma já fora a menina sentada na cadeira de madeira, vendo a mãe dela coar café. Só que o filtro era diferente, de pano,  e, por isso, ela dizia, o café da mãe dela era melhor.
Mulher de hábitos, toda vez ela interrompia a história nessa parte e tirava da caixa o filtro de papel. Em seguida, entregava para que o menino deslizasse os pequenos dedos em sua borda e sentisse a textura. Daí, pegava de volta para adicionar o pó, não sem antes fazer uma careta e murmurar baixinho: “descartável”.
        Ela odiava as coisas descartáveis, bem como os mundos em desagregação. Ela gostava da estabilidade da gramática normativa e das palavras sofisticadas, que pescava em seus livros de páginas amarelas. Às vezes, lia alguns trechos em voz alta, para alegria do menino.
Ele a amava profundamente desde muito pequeno, porque ela, toda estabilidade e filtros de pano, conservadorismo e manias, deu-lhe a proteção dos mundos estáveis.
          O menino cresceu, mas seria injusto dizer que isso a amargurou. Para ela, ele foi a única grande exceção: a adolescência lhe deu diferentes brincos e piercings, penteados que não viravam o mês e uma tatuagem no antebraço. A cada uma desses mudanças, ela reagia com a mesma careta que fazia para os filtros descartáveis. Contudo, dava-se o luxo de acrescentar: “Em você, até que não fica tão ruim.” E ele ria por dentro, ele mesmo todo iconoclastia e ira, ressentido contra o conservadorismo raivoso do mundo. Menos contra o dela. Porque o dela tinha face, histórias ao pé da cama, as primeiras palavras bonitas e as músicas antigas da fazenda que ela cantava para ele dormir. Além do cheiro de café fresco, é claro. Na verdade, ele sofria com ela o tempo que passava e via brotar, de toda sua instabilidade, um desejo profundo de que ele nunca tivesse saído daquela cadeira de madeira colorida.
Mais tarde, ela adquiriu o costume de sentar em bancos de praças e observar um mundo em que ela não mais se reconhecia. As páginas amarelas e cheias de traças tinham virado aqueles quadrados futuristas com telas luminosas e design de gosto duvidoso. Os livros, pelo menos, empilhavam-se aos montes nos guarda-roupas cheios de mofo. Eram espaço, concretude e permanência.
Os mais novos ralhavam com o habito dela de acumular, mas ninguém entendia que era só assim que ela se sentia protegida. Como não viam que aqueles eram os muros de sua fortaleza? O que as pessoas esperavam? Que fosse possível viver em um mundo em que até as palavras fossem descartáveis e consumíveis? Era essa a ideia que a oprimia e que ela não suportaria jamais. E era por causa dessa ideia que, sentada no mesmo banco, chorava todas as manhãs, meio invisível aos traunseuntes apressados. Na hora do almoço, o  menino escavapa do trabalho e ia buscá-la. Pegava-a pela mão e a conduzia pacientemente até a porta de casa, ele também precisando voltar a um passado que nunca habitou.
         Infelizmente, o menino um dia foi morar longe. Nessa época, já tendo perdido alguns fios de cabelo, também começou a querer ter hábitos. Dessa feita, ligava para ela toda vez que estava em uma rodoviária. Quase sempre, falavam sobre as mesmas coisas, embora essa fosse a única situação em que ele,  sempre tão afoito, ouvia mais do que falava. E ela repetia os mesmos temas e narrativas, às vezes mais de uma vez na mesma ligação. Eram os instantes em que o mundo parecia subitamente tão ruidoso e novo como melancólico para ele. Contudo, ele só chorava no momento antes de desligar, quando ela voltava com o mesmo velho verso de um poema muito antigo: “Não se esqueça, meu querido, a vida é luta renhida. Te amo.” E o nó na garganta era tão grande que ele respirava fundo para responder que a amava também.
           Ele sentiu que precisava voltar quando ela começou a não reconhecer a própria casa. Porque era aquele o único mundo que restava para ela. Se o lugar se fosse, ela se ia também, uma vez que sua alma aceitaria tudo, menos ser feita de material descartável. De certa forma, ela sempre soubera disso um pouco antes de esquecer.
Por isso, ele voltou de fato. Ele quase não suportava a injustiça da situação. Isso acontecendo logo com ela, que trabalhara tão arduamente naquela fortaleza, frequentara tantos sebos, comprara tantos móveis de madeira quanto possíveis e teria estocado filtros de pano se necessário. Ela era como a personagem do filho daquele filme “Adeus, Lênin”, trabalhando incansavelmente para que sua mãe não visse a mudança do mundo. Ou será que era ele?
Voltar a conviver com ela plantou  nele a melancolia mais funda que já conhecera. Afinal, ela, aquela casa, o passado, as traças, enfim, todos os elementos que cabiam no espaço entre os dois eram exatamente a parte do mundo que ele queria congelar. Proteger contra a ação do tempo. Impermeabilizar contra a desagregação. Nesses últimos dias, passou a odiar todos os iconoclastas e toda aquela parte cruel de si mesmo que já quisera renovar o mundo a cada milésimo de segundo.
O enigma da memória começou a enredá-lo e a pressão de lembrar consumia-o tanto mais ela esquecia. O mais difícil para ele foi perder a excepcionalidade, quando ela começou a ralhar com suas tatuagens, “horroroso um homem velho ter o corpo manchado assim”. Às vezes, contudo, a expressão dela mudava e, com olhar cheio de ternura, ela exclamava: “Mas meu menino está cada dia mais bonito!” Deitado na mesma cama que dormia quando criança, o adulto se sentia mais menino que nunca, até no choro copioso e demorado que consumia as madrugadas.
Se ele desejava que todo esse enredo se abreviasse? A mais pura verdade é que não. No fundo, ele ainda teorizava que essa era a última grande lição que ela tinha para ensiná-lo, uma daquelas dinâmicas cabeludas escondidas nos livros de páginas amarelas. Tinha a ver com a memória, mas o resto quase sempre lhe escapava.
Todavia, existia uma situação na qual ele encontrava, ao menos momentaneamente, um sentido completo e profundo e essa teoria delirante até parecia real. Era quando ela o acordava muito cedo e dizia que estava faminta. Então ele a ajudava a se sentar na cadeira de balanço estrategicamente localizada ao lado do fogão. Em seguida, abastecia de sachés industrializados a nova cafeteira eletrônica e contava para ela histórias sobre um mundo onde o café ainda era preparado usando-se filtros descartáveis de papel. Nessa hora, os olhos dela se arregalavam e ele jurava ver um lampejo de fascinação dominá-los, ainda que por um instante infinitesimal. Era só então que ele sabia que o tecido da alma de ambos estava intacto. E isso valia a imensidão e o firmamento, as duas mais belas palavras sofisticadas que ele aprendera com ela.

domingo, 11 de outubro de 2015

Minha Cara

         Novamente, senti que precisava escrever para você. Como todo o desejo que se constrói durante anos, esse também resvalou para todos os aspectos da realidade. Não tenho ideia de como anda sua vida hoje. Não sei se ainda emenda diálogos com letras musicais, nem se toma apenas leite desnatado. Na verdade, confesso que, durante muito tempo, gastava algumas horas no exercício de imaginar como você poderia estar. Isso me lembra de você dizendo que eu estava demorando demais para perder alguns hábitos. E é claro que você estava certa. Posso dizer, ao menos, que mudei. De qualquer forma, a memória prega peças e é inevitável que o passado vire desejo e o desejo se esconda numa realidade adulterada.
 Perdoe-me, mas ainda gosto de lembrar daqueles tempos, tão cheios de ingenuidade que era mais do que óbvio que não poderiam durar. Sinto que os vivi com a consciência dos personagens de tragédia, tão cegos quanto sensíveis à fatalidade de seus próprios destinos. Brasil-China, nossa geração indo para algum lugar, eu estava onde queria estar pela primeira vez na vida, a multidão de pecados subitamente esquecida pelo hino da conciliação. Você sentada ao meu lado no ônibus, a cidade imunda lá fora, a alegria dos sobreviventes em cada piada de mau gosto sobre nossas fraquezas.
E aquela viagem para a praia, então? Bebendo o dia inteiro enquanto o sol se movia no céu, você zombando de minhas suposições apocalípticas, porque afinal aquilo nunca poderia acontecer comigo nem em nosso país, as coisas estavam mudando e  nada seria como antes. Jamais. Quando o sol descia ao fim da tarde, cerveja entupindo nossos poros, corpos inconcebivelmente quentes, o céu tingido de laranja estanque e o mundo entrando naquele tempo que demora e parece ser o mesmo de sempre, lembro claramente de resgatar uma memória da infância. Aquela memória de quando ia para a fazenda com meus pais e voltava só no fim da tarde, sozinho no banco de trás do carro, olhando desolado o laranja infiel do céu e sentindo-me oco. O céu prometia demais, mas a vida teria de ser imensa para tantas promessas. Não me sentia pronto para um futuro tão largo, mas fingia não me importar:  tinha tempo. E daí chegava em casa,  minha mãe me servia a sopa que detestava e eu me deitava de barriga na cama e assistia aos horrorosos programas dominicais, meu pai embriagado roncando no sofá do lado: e tudo cabia bem nesses pequenos gestos banais.
Sim, já disse que lembranças não são confiáveis, tão menos lembranças dentro de lembranças, mas isso é tão vivo em mim como o desejo de te escrever, que tantas vezes apareceu durante todos esses anos e tantas vezes enterrei, certo do absurdo que a ideia encerrava. Íamos longe, minha cara, disso tinha certeza.
        Um pouco antes de partir, ainda passei algumas noite revistando seu apartamento e indo nos lugares que ia sempre contigo. Era para me despedir, deixara claro. E você agiu normalmente, fazendo piadas sobre nossas inseguranças como sempre, rindo descordenadamente como eu adorava, impassível em suas convicções. A verdade é que, no fundo, eu queria que você me impedisse de ir. A burrice e a estupidez embutidas em minha decisão eram tão claras e transparentes, eu estava certo que você diria, de última hora, “odeio que você sempre queira ser buscado, não seja tão narcisista, cresça um pouco, assuma suas decisões, mas fica, por favor fica!” Você não o fez e eu me justifiquei pensando que ainda teríamos muito tempo, a vida era larga como os fins arrastados de domingo e os pôr-dos-sóis na praia.
                Mas a vida foi. Não sei se estreitou-se para você, mas é certo que minha vista ficou viciada.  Antes, quando olhava os ônibus girando no fim da tarde na cidade enorme, via uma multidão cansada e irritada, via todas as caras da desigualdade de um país que não, de uma vez por todas, não iria se conciliar, mas também via energia e promessas. Ver cidades como promessas é um luxo a qual só se dão os adolescentes.
E nós fomos o fim da adolescência, é certo.  Isso ficou mais claro alguns anos depois, quando três adolescentes me encurralaram no ponto de ônibus, pegaram minha carteira e meu celular e encheram de pontapés meu estômago. A verdade é que nem senti raiva, só medo. Em casa, enquanto rasgava a camisa de sangue colada no corpo, também senti vergonha. Chorando no chuveiro, até quis pedir desculpas. Desculpas por ser branco na maior nação negra fora da África, desculpas por ter demorado tanto a ver meus privilégios, desculpas por só agora entender porque me sentia tão impuro. E também desculpas por ter acreditado piamente que toda aquela lenga-lenga conciliadora, aquele papo de classe média branca progressista, iria me redimir. Mas, sobretudo, queria também te ligar e pedir seu perdão por ter desistido antes de sequer ter tentado, por ter bancado o personagem especial e orgulhoso da tragédia, aquele que sabe do abismo ao fim do caminho e, ao tentar pegar um atalho, cai num abismo maior.
Você veio muitas vezes depois, uma versão inventada de quem você poderia ter se tornado, certamente cada vez mais distante de quem você é hoje. Tantas vezes, até hoje, ressinto-me por não estar no mesmo abismo que você. Ainda vejo você olhando para fora da janela do ônibus, aquela cara que fazia quando estava em outro lugar, a melancolia pensativa que você se culpava por ter, já que achava injustificável. Também vejo essa melancolia dando frutos, nas reticências eloquentes de cada um dos seus gestos, no jeito sistemático pelo qual você organiza sua mesa, na consciência corajosa que só possuem aqueles que estão sós e não estão dispostos a abrir mão da empatia. Você falava muito, mas hoje estou certo que fala muito menos e observa muito mais, olhos arrastados como o pôr do sol que domava o futuro e me trazia tanta segurança.

Não sei se você lerá essa carta um dia, mas ficarei feliz de deixá-la, mesmo como gesto incompleto. Já não me restam muitos anos e percebi que só a sensação de algum sentido é capaz de me trazer paz. Por trás de toda fraude que foi minha geração, toda vida que vivi como coadjuvante de mim mesmo, toda melancolia que me encontrou em tantos domingos vindouros, eis aqui um gesto da mais pura verdade. E do mais profundo sentido. Espero que ele, de alguma forma, me redima. Não pelas palavras fáceis, pela verborragia fragmentada e desconexa, mas porque sinto que o peso de muitos anos couberam nesse gesto e ele em si encerra o melhor de todo amor que tenho por aqueles tempos em que nós dois éramos imperdoavelmente adolescentes.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Só lacunas

Posso esquecer muita coisa, não esquecerei sua voz baixa me chamando de volta, não fique tão longe, estamos aqui, o mundo está aqui e a Terra grita e agoniza toda hora, volte logo, não há nada lá fora, estou indo te buscar. E eu sempre só quis ser buscado, a mais simplista das pessoas vaidosas. Era a criança que se escondia e cronometrava o tempo que levava para darem falta dela. Sim, eu sei que isso é uma falha de personalidade, provavelmente um defeito de caráter. Mas quem não ama ser buscado?
Sinto sua falta. Percebi isso primeiro quando me peguei recitando um velho texto, apostila da sexta série ou algo assim. Não recordo claramente o conteúdo, a clareza vamos deixando com a idade que corre. Sei que era sobre um homem e a ausência da amada, contabilizada em pedaços de rotina espalhados pela casa.
Eu realmente queria ser menos adolescente. Queria ser muito original. Mas agora só posso ser verdadeiro. E ser verdadeiro é resvalar em um monte de clichês. No fim, é apenas o que somos. Vamos aos clichês: é fato que gostava mais de mim quando estava contigo. E também é fato que não habito mais nossos espaços de rotina, mas sei de cada pedaço de nós que se espalhou pelo caminho e se entranhou em mim. Posso voltar para a alma, para o desejo de rasgar a própria pele, para meu ego imenso e hipersensível.
Prefiro parar em nós dois, repousar no silêncio sereno do lugar para onde sempre podia fugir. Para as tardes longas e arrastadas, para os segundos cheios de escárnio e ingenuidade, para a certeza estúpida de permanência. Para seu cabelo enroscando nas minhas mãos desajeitadas, para a coragem de ser brega, para a confiança da qual se nutrem os atos ridículos e os gestos descontínuos. Quando me sentia velho demais para ser tão jovem, era só sua piada capaz de desmontar minhas certezas. E não sentia tanta saudade assim de me conectar com o mundo. Não havia espaços infinitesimais e intransponíveis, o desconforto absurdo de habitar meus gestos inquietos.
          Costumava dizer que vaguei demais até primeiro caber em algum lugar. E isso me lembrava outro autor, dessa vez Drummond, “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, mas eu nem me dava conta das mãos, descordenadas como as de uma marionete que jamais percebeu ter um mestre. Lembrava de palavras esparsas da adolescência vertiginosa. Alguns solavancos, gargalhadas, paranóia e solidão. Seja homem, isso é pequeno demais para te quebrar. Seja homem e engula as lágrimas, seja homem e não deixe te rebaixarem. Enfrente e não procure colo. Não, não caia fundo nos cabelos dela, no corpo dela, não dependa tanto desse afeto, não procure tanto consolo. Não mergulhe nas certezas macias, no calor letárgico.
Mas e se já fui muito fundo, como todos os clichês? E se nunca aprendi a ser homem? E se agora devo voltar para uma casa que nunca habitei, para o estranhamento dos gestos desconexos de um corpo que, sendo meu, nunca pareceu me obedecer? E se nunca aprendi a engolir o choro? Porra, como sinto sua falta.            


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sobre excessos


                Acho que só escrevo sobre solidão. Talvez por isso, notei que não gosto de escrever senão para alguém. Sempre escolho, pois, destinatários imaginários. Essa é para você, que está debruçada próxima a janela, também ouvindo a chuva cair. Você sabe que é um clichê lamentável e raso. Você é vítima de toda pretensão da boa literatura ocidental, da excitante articulação política e da fé febril nos projetos de civilização. Você queria se despir de todo esse mosaico de excessos, mas tem medo de não achar nada. Então você volta a procurar a salvação na Igreja na qual sua fé de superfície foi lavrada: folheia alguns livros diferentes, saboreia a fantasia estética do humano complexo (tantas camadas quanto um caleidoscópio quebrado!) e se deleita com a incompletude que benze cada fiel renovado. Em seguida, fica perto da janela enquanto a chuva cai e tem vontade de escrever. Sim, escrever, porque você também é escrava demais de sua fé e, no fim, nada é tão complexo assim e a chuva traz em você a melancolia genérica que traz há tantos personagens e dias que habitam os quilogramas demais de arte e cultura pop que você consome.
                Mas, que merda, você é tão cínica quanto eu e sabe de tudo isso. Ainda assim, não consegue se livrar de sua melancolia genérica. Ela parece tão funda, tão bem gestada em sua solidão confortável, tão ingrata para não ser única! É o isolamento, você está certa. Eu vejo bem o que você me diz: você também é dúbia e não gosta tanto assim de você, mas no fundo ainda alimenta a crença secreta de que é uma boa pessoa. Ou de que será capaz de ser um dia.
                Com a chuva caindo, sua mente se enche de imagens. Sua mente não se importa que seu mundo seja seu quarto e seus livros: ela te trai com imagens de paisagens, pessoas, países e vidas do mundo todo. Vidas que você não conhece. Vidas das quais você não daria conta. A solidão daqueles que realmente tem razões para chorarem durante a chuva.
A resignação e a força das mães solteiras que trabalham em dois turnos e ainda pensam nos filhos vinte e quatro horas lhe enternece especialmente. O completo abandono dos presidiários lhe intriga. Quem chora por eles? Quem liga? Os que dormem na rua: você cruza com eles todos os dias e sabe que não faz nada. De qualquer forma, você os vê na chuva lá fora e não consegue sequer imaginar uma história de vida para eles. Como chegaram até ali? Algum dia você será capaz de fazer algo por eles? Do que servirão todos esses excessos?
Você pensa na solidão resignada desses personagens, resignada na falta de palavras e meios para dizer, na falta de voz para gritar, na falta de ouvintes para ouvir, na falta de uma educação burguesa que pudesse lhes incutir a sensação de que eles têm o direito e a necessidade de dizer: isso mesmo a toca profundamente.
            Eu queria te conhecer. Não que você exista, mas a sensação de que você também poderia estar escrevendo para mim, às vezes, me acalma. Eu não estou na rua. Minha família me ama. Eu levanto todos os dias e saio por aí: ocupo meu tempo, tento ser útil quando dá. Tenho amigos maravilhosos. Só que há um buraco grande quando a chuva cai. Sim, um buraco, já que já mandei à merda os clichês. Você não liga para eles, correto? Isso não é bem um concurso literário e bem... Você já leu até aqui um texto sobre chuva e melancolia, pode lidar com mais esse lugar-comum. E com os próximos também, porque tenho de dizer que esse buraco fica no meio do estômago e realmente acelera meus batimentos e eu não aguento mais agonia que ele gera.
                E se eu te abraçasse em frente à janela chuvosa, como nos filmes? Sinto que nada mudaria. Só outro excesso estético. Contudo, eu gosto de pessoas que fazem piadas consigo mesmo e sei que você é muito boa nisso. Preciso acreditar que daria certo nós passarmos uma tarde juntos. Você fecharia a cortina, eu esqueceria a chuva e todo esse mundo lá fora que eu nunca vejo. Também esqueceria os livros, os filmes, a televisão, a internet: os dispositivos que prometem me contar sobre a realidade, mas que mentem demais para mim. Eles me sufocam de uma empatia paralisante que não serve para nada e que acaba virando auto piedade. Nós dois não gostamos de quem somos quando sentimos auto piedade, certo?
                De qualquer forma, eu sei que eu olharia para você. Talvez eu até olvidasse que tudo isso é outro clichê, uma versão reciclada do mais barato e raso escapismo adolescente vendido em cada comédia da sessão da tarde. Você faria uma piada sobre o fato, como os roteiros dessas comédias também aprenderam a fazer. Nessa hora, eu olharia de novo para você.

Então gargalharia doentiamente e esqueceria o meu buraco no estômago, porque ele viraria apenas dor: dor biológica, a contração de algum músculo após o riso intenso. Nós até poderíamos chorar copiosamente alguma hora mais tarde e haveria carne e ossos em nossos abraços. Você teria fome e cozinharíamos juntos. Com certeza, comeríamos sem afetação, lambuzando os dedos e devorando com desespero a comida. Seríamos animalidade e corpo imperfeito, presença concreta e pesada a libertar de vez cada pretensão estéril. Despidos, encontraríamos o sexo e treparíamos até sua pele cansar-se da minha. Dormiríamos profundamente enlaçados e todas as camadas anteriormente descartadas voltariam a reconstituir-se. Só que estariam menos superficiais, curadas dos excessos de abstrações distantes: quase compactas em suas incompletudes. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sobre agressividade

             Tudo veio à tona de novo quando as ruas se encheram de fúria. Não era ele um indignado, por que aquilo o assustava tanto? Naquela noite sonhou, mas não foi um sonho apenas, foi uma lembrança editada pelo delírio onírico. Ele numa festa de ano novo, o único de preto, incapaz de se comunicar, preso demais em si, revoltado por ter certeza de que ninguém ali era feliz. Mais revoltado ainda por saber que era espantosamente autoritário e arrogante que tivesse esse tipo de certeza infundada.  Queria livrar-se dela, esmagá-la, triturá-la. Então dizia para si que tinha que mudar e aceitar que as pessoas eram muito felizes, o problema era ele, um dia trataria de se encontrar. Antes, precisava transformar aquele ressentimento e depois a certeza raivosa morreria naturalmente. Seria uma pessoa muito melhor!
            Mas acordou anos depois com a certeza ainda lá, oscilando entre os extremos eu e mundo: “onde há espaços em que eu possa caber?” ou “como pode o mundo estar caminhando para o fim melancólico e merecido da desgraçada espécie humana e todos continuarem seguindo hipnotizados, como em rebanho?”. Ele condenava-se pelos dois pensamentos, ambos extremos de uma mesma misantropia a ser combatida. Contudo, havia a moral cristã que tinha aprendido bem: ela ensinava que a única agressividade deveria virar energia transformadora e ele seria uma pessoa muito melhor!
               No mais, sempre falara demais, palavras sem fim, sílabas a dar para um pau. Odiava  demais sua voz, mas gostava de sua fluência com a língua, embora muitas vezes saísse de círculos sociais com a impressão de ser o mais desagradável no universo. Nessas horas, pensava em esfarelar e ralar sua face no chão, tamanha era a raiva que sentia de si mesmo. Quando ouvia críticas, pedia desculpas, embora no fundo começasse a nutrir certa raiva pelos seus interlocutores também. É porque ele nem sempre concordava com as críticas, mas nunca as retrucava. De vez em quando, tinha delírios em que respondia de forma contundente às represálias esnobes dos outros, sobretudo àquelas superficiais e muito intolerantes. Nada disso transparecia em suas desculpas suplicantes e famintas, é claro!
                Às vezes, tinha medo de nunca ser capaz de virar uma pessoa melhor. Tinha tanto ódio e ressentimento quanto aqueles que ele tanto odiava. E tudo que ele queria era ser diferente disso. Cansava-se demais nessa luta incessante, na busca pelo avesso do outro lado do espelho. Enfim, vieram os sonhos e as lembranças com as ruas cheias de fúria, ruas nas quais ele não conseguia pisar.
                Nessa fase, tornou-se mais agressivo do que nunca em seus diálogos internos, em suas respostas atravessadas a todo tipo de afirmação que julgava descabida. Aquelas pessoas diziam defender a todos, mas ele sentia que, na verdade, algumas daquelas pessoas queriam apenas uma coisa: o extermínio dele e de todas as pessoas como ele, queriam roubar todas as razões que, nesse país, permitiam que as pessoas sorrissem às vezes. Eram como os adolescentes inseguros do Ensino Médio que, tantas vezes, esfolaram de fato a cabeça dele no chão para encontrar um sentido que nunca tiveram.
                Tudo piorou ainda mais quando começou a tentar, educada e polidamente, posicionar-se com toda sua racionalidade auto-contida. Ninguém queria isso. As pessoas queriam mesmo o esfolamento no asfalto e ele foi descobrindo mais e mais agressividade e sentimentos represados e acordar todo dia naquele ambiente parecia exigir um oxigênio que estava em falta na atmosfera nacional.
                Ele sempre fora muito competitivo, mas odiava agredir, brigar e violentar. Isso não lhe trazia prazer, o sofrimento do outro. Gostava de vencer, mas preferia que fosse vitória silenciosa: a dor do derrotado quase apagada, guardada numa escuridão respeitosa. Gostava de vencer sem que houvesse perdedores. Assim como gostava de não ser machucado, mas odiava se defender. Assim como odiava fechar as coisas em caixas de sentidos e catalogar a vida, mas era incapaz de viver sustentado apenas por conceitos soltos e vagos, mutáveis, mutantes e abertos. Assim como amava a linguagem e tudo que vinha com ela, todo o poder de imprecisão de suas desculpas que lhe redimiam sem lhe trair, de suas posições que não lhe manchavam e nem lhe entregavam, do seu gentil sexo unilateral, toda sua fluidez ambígua definidora, mas odiava as muitas fissuras que ela exibia em seu tecido semântico resplandecente.

                E dessas contradições fundamentais, dessa ruptura entre dentro e fora, fechado e aberto, casa e rua, silêncio e multidão, multidão e comunhão, multidão e caos, multidão e ressentimento, multidão e ele, um grupo e ele, segurança e ruptura, desse emaranhado de abismos sem fim, vinha sua agressividade, seu espanto mais perplexo e sua eterna claustrofobia, mas também seu amor mais desvairado pela vida. Talvez só precisasse parar de tentar fechar os abismos. Talvez bastassem tocos que servissem de pontes, mesmo que provisórias, para que seu indivíduo emergisse mais inteiro, menos fragmentado, próximo de sua plenitude. Todavia, sentia-se mais longe do que nunca da habilidade de construir pontes.

sábado, 8 de novembro de 2014

Ela, ele, ambos: uma separação em três atos


Ela – Tatuagem
            Já estava esperando há uma semana o momento de chorar em frente ao terapeuta e atropelar as lágrimas enquanto se desintoxicava dele com o falatório frenético:
            - O problema é que ele nunca entendeu a minha solidão. Havia manhãs e manhãs, mas havia também aquelas noites claras em que eu me sentia tão completamente só e só queria que ele me levasse para seu sonho, que sempre parecia harmonia. Quando o apertava forte junto ao meu corpo e o abraçava para nunca mais sair, era para que entendesse que eu queria rasgá-lo, arranhá-lo, marcá-lo e depois sentir vergonha: era minha forma de ter certeza de que estava fora de controle quando cravei fundo em sua pele. Porque aí poderia me enganar e dizer que ele me teve o tempo suficiente para eu apagar de minha fragilidade. Mas o que nos demoliu foi que ele nunca entendia. Ele não entendia nada que não fosse puramente literal e ninguém ia dar conta de pedir as coisas que eu queria pedir: todas as pequenas banalidades que chamávamos de nós, queria ter alguma garantia de que não era só eu que precisava demais daquilo. Mas não era pura mesquinhez, era uma necessidade de me afogar em sua pele, um desespero de chorar menos nas noites claras, uma vontade de me sentir menos sozinha, de ser ilhada por ele, sem nenhuma saída que não nós em todas as direções. E tudo isso começou a assustá-lo, essa minha desesperada agonia vibrante e sei que foi aí que comecei a acabar conosco. E pensar que ele que se foi achando que eu não queria mais. Óbvio que não era isso, ele e seu medo risível das metáforas. Eu só não queria dizer que precisava muito. E na noite em que ele se foi, sonhei que dançava para uma plateia vazia e que isso me entristecia. Ele me assistia dos bastidores e sabia que eu estava melancólica com a plateia vazia, mas mesmo assim continuava nos bastidores. Eu percebia que ele me assistia nos bastidores e que não iria para a plateia, e isso me enchia de mágoa e abandono. Tomada por uma súbita alucinação, eu rodopiava sob luzes tênues que depois começavam a piscar e o rosto dele apenas aparecia como instantâneos fotográficos na escuridão, cada vez mais fugidio, como a zombar de mim, revelando sua natureza etérea e frágil. E eu entendia que era por isso que eu quis tanto tocá-lo e marcar fundo: era esperança de tornar concreto e tangível o rosto de luzes e sonhos que me assistia dos bastidores. E eu girava cada vez mais rápido, pois queria ser tomada completamente pela vertigem ensandecida e apagar. Queria a escuridão. Queria me certificar de que nem todas as marcas na pele, na alma, na rotina, nos lençóis, nos silêncios, nas discussões cheias de fúria e prolixidade, nos olhares transbordando de lamento, nenhuma marca tinha sido suficientemente forte para impedir que ele evaporasse nos bastidores de uma dança sem plateia com luzes que me deixavam tonta. A última coisa de que me recordo antes de desacordar no sonho e acordar para a realidade era da música que tocava ao fundo, soprada dos bastidores agora vazios: “Tatuagem”, de Chico Buarque.
Ele – Trocando em miúdos
            Ele entrou já trôpego no segundo bar e pediu uma dose de cachaça à garçonete mal-humorada. Só queria se embriagar, apoderado sabe-se lá do quê, com a certeza de pertencer ao irresistível clichê dos amantes bêbados e abandonados. E queria se embriagar nas entranhas da madrugada num bar caindo aos pedaços, mal iluminado e vazio, para reforçar seu sentimento de completo abandono e desvelo. Queria reprisar todos os acontecimentos dos últimos meses, queria responder a ela todas as acusações absurdas que fizera. Bem, ele também fizera acusações absurdas e dissera coisas que não se diz, palavras que não se interceptam no ar, que acertam velozes e depois ficam congeladas para garantir que não haverá nunca mais o retorno ao instante imediatamente anterior à eclosão delas. Era por isso que, na maioria das vezes, ele gostava de responder só a uma versão imaginária dela, que existia apenas na cabeça dele e a quem dizia quase tudo que nunca conseguia dizer pessoalmente.
            Perdido nesse exercício de flexão do ego e auto piedade, posou os olhos num karaokê largado no fundo do bar. Nunca cantara em público e sempre odiara expor-se, mas daí lembrou que não havia ninguém ali além dele. Naquele instante, adorou o fato de que, em japonês, karaokê significava orquestra vazia. Adorou porque sentiu aquilo como metáfora de sua situação. E ele adorava metáforas. Pois bem, ele iria cantar com a orquestra vazia para uma plateia de uma pessoa só: ela, sentada na primeira fileira, que ouviria tudo que ele tem a dizer.
            Dirigiu-se ao fundo do bar, pegou o microfone na mão e escolheu qualquer música. Isso era irrelevante. Ele estaria cantando sempre a mesma música: Trocando em miúdos, de Chico Buarque. Ele, como o eu-lírico da música, estaria revendo o saldo de um relacionamento, passando com um trator por cima das pontas soltas, na fúria de transformar tudo em pó o mais rapidamente possível. E enquanto cantava seu drama pessoal olhando diretamente para ela, sentia que se libertava. No meio de sua serenata às avessas, arrancou a aliança do dedo e jogou no chão: assim, nesse teatro de si mesmo, interpretando o personagem que é pura mágoa e ressentimento, tinha certeza de que seguiria em frente.
            Só que ele, ao contrário do eu-lírico da canção, desandou a chorar desesperadamente no meio do show e ela nem se moveu na plateia imaginária que ele criara. Ela permaneceu impassível enquanto ele engolia, sozinho, as lágrimas quentes que emergiam compulsivamente. E então ele começa a sentir-se tonto e nauseado de dor por se alimentar das próprias lágrimas. E cai desacordado no chão frio de um bar abandonado no meio de lugar nenhum.
Ambos – Futuros Amantes
            A garçonete estava cansada daquela cena. Já a assistira inúmeras vezes: homens bêbados abandonados pelas mulheres, que achavam que seus dramas eram os maiores da Terra. Ela jamais tivera ninguém, então era razoável que julgasse o amor uma coisa de tolos. Ela era mais astuta que isso, ela entendia os mecanismos que norteavam o comportamento dos amantes: não passava de sujeição a um modelo cultural de amor romântico criado muito antes de qualquer um de nós nascermos. Ela nunca fora à escola e não desenvolvia essa ideia com tanta prepotência e academicismo, mas sua inteligência rara não deixava escapar o fato de que o tipo “bêbado-amante-abandonado”, tentando conversar com ela sobre dores do abandono, havia crescido muito em frequência ali desde que Reginaldo Rossi fizera muito sucesso com a música “Garçom”.
            Da parte dela, havia uma irritação tremenda com esse egoísmo exacerbado dos amantes, que sempre julgavam sua dor a maior de todas. Ela era assim, amargurada e segura: fizera-se sozinha, não precisava e nem queria precisar de ninguém. Não era tola, porque já fora uma jovem bela e se divertira um pouco com alguns homens. Muito menos do que poderia, é fato, mas é que ela se entediava fácil com tudo aquilo.
            Naquela noite em específico, estava incomodada com aquele rapaz que entrara ali na alta madrugada e não parava de virar doses de cachaça. Ela mesma já teria fechado se o estabelecimento fosse dela, mas ela nunca tivera nada e aprendera a “fazer o que tem que ser feito para continuar viva”, como gostava de dizer. De qualquer forma, achou peculiar (não original, que fique claro!) e até divertida a forma como aquele rapaz gesticulava os lábios e parecia achar que cantava quando pegou o microfone do karaokê. E bem, eram quatro da manhã naquela espelunca que subtraíra metade da sua juventude: fato raro que ela achasse algo divertido!
            É claro que logo o rapaz desmaiou de bêbado e ela teve de chamar uma ambulância e voltar ao seu mau humor costumeiro.  Agora, pelo menos, poderia partir, ela pensou. Enquanto limpava o chão, percebeu que o jovem deixara um anel próximo ao local em que cantava. Ela colocou em sua bolsa, determinada a ver se conseguia vendê-lo no dia seguinte.
            Ao chegar em casa, já amanhecia. Antes de se deitar, pegou-se olhando em frente ao espelho e testando o anel em sua mão. Por um instante fugaz, permitiu-se enganar por tudo aquilo que chamava de “essa bobagem toda”:            fantasiou a história do casal para o qual aquele anel já significara muito. Pensou sobre as noites frias em que eles se sentiram sozinhos e fizeram companhia um ao outro. E também começou a devanear sobre como seria legal ter alguém como companhia quando ela se sentia fraca demais. Mas daí lembrou-se de censurar-se de novo por perder-se naquelas fantasias que, muito antes aprendera, era um luxo ao qual não podia se permitir.
            Sim, ela entendia todos os esses sonhos como luxo.  Sobretudo por ter, desde cedo, consciência de que os homens à sua volta queriam que ela acreditasse ser frágil apenas por ser mulher. Ela sabia quão estúpida era essa ideia, principalmente ela que, graças a Reginaldo Rossi, entendia como ninguém que os homens também tinham delírios românticos, a maior parte deles mais ingênuos e egocêntricos que o das mulheres. De qualquer forma, ela não daria margem alguma para que alguém voltasse a vê-la como frágil. Ela “faria o que fosse necessário para sobreviver”.

            Jogou o anel numa gaveta e prometeu-se penhorá-lo no dia seguinte. Deitou-se em sua cama estável e sonhou que se apaixonava até às raias da loucura por alguém que se apaixonava por ela também e, pela primeira vez, dividia a cama para dormir, entregando-se à instável presença do outro nesse momento de plena vulnerabilidade. Aquele anel nunca saiu daquela gaveta.