Alguma utilidade?

Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Só lacunas

Posso esquecer muita coisa, não esquecerei sua voz baixa me chamando de volta, não fique tão longe, estamos aqui, o mundo está aqui e a Terra grita e agoniza toda hora, volte logo, não há nada lá fora, estou indo te buscar. E eu sempre só quis ser buscado, a mais simplista das pessoas vaidosas. Era a criança que se escondia e cronometrava o tempo que levava para darem falta dela. Sim, eu sei que isso é uma falha de personalidade, provavelmente um defeito de caráter. Mas quem não ama ser buscado?
Sinto sua falta. Percebi isso primeiro quando me peguei recitando um velho texto, apostila da sexta série ou algo assim. Não recordo claramente o conteúdo, a clareza vamos deixando com a idade que corre. Sei que era sobre um homem e a ausência da amada, contabilizada em pedaços de rotina espalhados pela casa.
Eu realmente queria ser menos adolescente. Queria ser muito original. Mas agora só posso ser verdadeiro. E ser verdadeiro é resvalar em um monte de clichês. No fim, é apenas o que somos. Vamos aos clichês: é fato que gostava mais de mim quando estava contigo. E também é fato que não habito mais nossos espaços de rotina, mas sei de cada pedaço de nós que se espalhou pelo caminho e se entranhou em mim. Posso voltar para a alma, para o desejo de rasgar a própria pele, para meu ego imenso e hipersensível.
Prefiro parar em nós dois, repousar no silêncio sereno do lugar para onde sempre podia fugir. Para as tardes longas e arrastadas, para os segundos cheios de escárnio e ingenuidade, para a certeza estúpida de permanência. Para seu cabelo enroscando nas minhas mãos desajeitadas, para a coragem de ser brega, para a confiança da qual se nutrem os atos ridículos e os gestos descontínuos. Quando me sentia velho demais para ser tão jovem, era só sua piada capaz de desmontar minhas certezas. E não sentia tanta saudade assim de me conectar com o mundo. Não havia espaços infinitesimais e intransponíveis, o desconforto absurdo de habitar meus gestos inquietos.
          Costumava dizer que vaguei demais até primeiro caber em algum lugar. E isso me lembrava outro autor, dessa vez Drummond, “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, mas eu nem me dava conta das mãos, descordenadas como as de uma marionete que jamais percebeu ter um mestre. Lembrava de palavras esparsas da adolescência vertiginosa. Alguns solavancos, gargalhadas, paranóia e solidão. Seja homem, isso é pequeno demais para te quebrar. Seja homem e engula as lágrimas, seja homem e não deixe te rebaixarem. Enfrente e não procure colo. Não, não caia fundo nos cabelos dela, no corpo dela, não dependa tanto desse afeto, não procure tanto consolo. Não mergulhe nas certezas macias, no calor letárgico.
Mas e se já fui muito fundo, como todos os clichês? E se nunca aprendi a ser homem? E se agora devo voltar para uma casa que nunca habitei, para o estranhamento dos gestos desconexos de um corpo que, sendo meu, nunca pareceu me obedecer? E se nunca aprendi a engolir o choro? Porra, como sinto sua falta.            


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