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Apenas um pouco do que escrevo. Gotas da pretensão que assombra a juventude: a maldita idade lírica, da extrema eloquência com a grande arrogância. Resta apenas desorientação.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Memória

‘’Não sei, mas sinto que é como sonhar 
Que o esforço pra lembrar 
É vontade de esquecer 
E isso por que? (diz mais)’’

(O Vento – Los Hermanos)

          Ele ouviu dizer que ela tinha começado a se esquecer e isso o machucou fundo. Foi ela quem primeiro lhe ensinou que memória era sentido e sentido era o tecido da alma. Mas começou com outro tecido, o dos filtros de café de pano. Desde muito pequeno, ele sentava em sua cadeirinha de madeira colorida na mesa da cozinha e a observava coando café. Ela sempre narrava a mesma história, porque ela mesma já fora a menina sentada na cadeira de madeira, vendo a mãe dela coar café. Só que o filtro era diferente, de pano,  e, por isso, ela dizia, o café da mãe dela era melhor.
Mulher de hábitos, toda vez ela interrompia a história nessa parte e tirava da caixa o filtro de papel. Em seguida, entregava para que o menino deslizasse os pequenos dedos em sua borda e sentisse a textura. Daí, pegava de volta para adicionar o pó, não sem antes fazer uma careta e murmurar baixinho: “descartável”.
        Ela odiava as coisas descartáveis, bem como os mundos em desagregação. Ela gostava da estabilidade da gramática normativa e das palavras sofisticadas, que pescava em seus livros de páginas amarelas. Às vezes, lia alguns trechos em voz alta, para alegria do menino.
Ele a amava profundamente desde muito pequeno, porque ela, toda estabilidade e filtros de pano, conservadorismo e manias, deu-lhe a proteção dos mundos estáveis.
          O menino cresceu, mas seria injusto dizer que isso a amargurou. Para ela, ele foi a única grande exceção: a adolescência lhe deu diferentes brincos e piercings, penteados que não viravam o mês e uma tatuagem no antebraço. A cada uma desses mudanças, ela reagia com a mesma careta que fazia para os filtros descartáveis. Contudo, dava-se o luxo de acrescentar: “Em você, até que não fica tão ruim.” E ele ria por dentro, ele mesmo todo iconoclastia e ira, ressentido contra o conservadorismo raivoso do mundo. Menos contra o dela. Porque o dela tinha face, histórias ao pé da cama, as primeiras palavras bonitas e as músicas antigas da fazenda que ela cantava para ele dormir. Além do cheiro de café fresco, é claro. Na verdade, ele sofria com ela o tempo que passava e via brotar, de toda sua instabilidade, um desejo profundo de que ele nunca tivesse saído daquela cadeira de madeira colorida.
Mais tarde, ela adquiriu o costume de sentar em bancos de praças e observar um mundo em que ela não mais se reconhecia. As páginas amarelas e cheias de traças tinham virado aqueles quadrados futuristas com telas luminosas e design de gosto duvidoso. Os livros, pelo menos, empilhavam-se aos montes nos guarda-roupas cheios de mofo. Eram espaço, concretude e permanência.
Os mais novos ralhavam com o habito dela de acumular, mas ninguém entendia que era só assim que ela se sentia protegida. Como não viam que aqueles eram os muros de sua fortaleza? O que as pessoas esperavam? Que fosse possível viver em um mundo em que até as palavras fossem descartáveis e consumíveis? Era essa a ideia que a oprimia e que ela não suportaria jamais. E era por causa dessa ideia que, sentada no mesmo banco, chorava todas as manhãs, meio invisível aos traunseuntes apressados. Na hora do almoço, o  menino escavapa do trabalho e ia buscá-la. Pegava-a pela mão e a conduzia pacientemente até a porta de casa, ele também precisando voltar a um passado que nunca habitou.
         Infelizmente, o menino um dia foi morar longe. Nessa época, já tendo perdido alguns fios de cabelo, também começou a querer ter hábitos. Dessa feita, ligava para ela toda vez que estava em uma rodoviária. Quase sempre, falavam sobre as mesmas coisas, embora essa fosse a única situação em que ele,  sempre tão afoito, ouvia mais do que falava. E ela repetia os mesmos temas e narrativas, às vezes mais de uma vez na mesma ligação. Eram os instantes em que o mundo parecia subitamente tão ruidoso e novo como melancólico para ele. Contudo, ele só chorava no momento antes de desligar, quando ela voltava com o mesmo velho verso de um poema muito antigo: “Não se esqueça, meu querido, a vida é luta renhida. Te amo.” E o nó na garganta era tão grande que ele respirava fundo para responder que a amava também.
           Ele sentiu que precisava voltar quando ela começou a não reconhecer a própria casa. Porque era aquele o único mundo que restava para ela. Se o lugar se fosse, ela se ia também, uma vez que sua alma aceitaria tudo, menos ser feita de material descartável. De certa forma, ela sempre soubera disso um pouco antes de esquecer.
Por isso, ele voltou de fato. Ele quase não suportava a injustiça da situação. Isso acontecendo logo com ela, que trabalhara tão arduamente naquela fortaleza, frequentara tantos sebos, comprara tantos móveis de madeira quanto possíveis e teria estocado filtros de pano se necessário. Ela era como a personagem do filho daquele filme “Adeus, Lênin”, trabalhando incansavelmente para que sua mãe não visse a mudança do mundo. Ou será que era ele?
Voltar a conviver com ela plantou  nele a melancolia mais funda que já conhecera. Afinal, ela, aquela casa, o passado, as traças, enfim, todos os elementos que cabiam no espaço entre os dois eram exatamente a parte do mundo que ele queria congelar. Proteger contra a ação do tempo. Impermeabilizar contra a desagregação. Nesses últimos dias, passou a odiar todos os iconoclastas e toda aquela parte cruel de si mesmo que já quisera renovar o mundo a cada milésimo de segundo.
O enigma da memória começou a enredá-lo e a pressão de lembrar consumia-o tanto mais ela esquecia. O mais difícil para ele foi perder a excepcionalidade, quando ela começou a ralhar com suas tatuagens, “horroroso um homem velho ter o corpo manchado assim”. Às vezes, contudo, a expressão dela mudava e, com olhar cheio de ternura, ela exclamava: “Mas meu menino está cada dia mais bonito!” Deitado na mesma cama que dormia quando criança, o adulto se sentia mais menino que nunca, até no choro copioso e demorado que consumia as madrugadas.
Se ele desejava que todo esse enredo se abreviasse? A mais pura verdade é que não. No fundo, ele ainda teorizava que essa era a última grande lição que ela tinha para ensiná-lo, uma daquelas dinâmicas cabeludas escondidas nos livros de páginas amarelas. Tinha a ver com a memória, mas o resto quase sempre lhe escapava.
Todavia, existia uma situação na qual ele encontrava, ao menos momentaneamente, um sentido completo e profundo e essa teoria delirante até parecia real. Era quando ela o acordava muito cedo e dizia que estava faminta. Então ele a ajudava a se sentar na cadeira de balanço estrategicamente localizada ao lado do fogão. Em seguida, abastecia de sachés industrializados a nova cafeteira eletrônica e contava para ela histórias sobre um mundo onde o café ainda era preparado usando-se filtros descartáveis de papel. Nessa hora, os olhos dela se arregalavam e ele jurava ver um lampejo de fascinação dominá-los, ainda que por um instante infinitesimal. Era só então que ele sabia que o tecido da alma de ambos estava intacto. E isso valia a imensidão e o firmamento, as duas mais belas palavras sofisticadas que ele aprendera com ela.

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